Bem vindo 2016

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Já chegou o Ano 2016 e hoje mesmo começou as suas novas funções, chegou animado até, mas já se sabe que a vida de Ano estagiário é dura, o 2015 que o diga. Espero que lhe tenham dado o manual de acolhimento e que se possível lhe tenham dito que a malta aqui de Portugal não se importa de ter 4 estações. Nem é tanto pelo tempo, mas pela piza! Sem as 4 estações deixa de fazer sentido o nome de uma das pizas favoritas dos portugueses.

Ainda por cima parece que o novato vai trabalhar mais 1 dia que o seu antecessor, parece que é bissexto… não me interpretem mal, eu não tenho nada contra, o 2012 também era e gostei bastante dele, mas já se sabe que algumas pessoas não são assim tão tolerantes.

O que me deixa realmente triste é ver que nenhum destes Anos passa do estágio, estão cá um ano e depois é a mesma conversa: Foste bom e tal, gostámos bastante do teu trabalho, mas sabes como é, não nos permitem renovar contratos é a crise e a conjuntura e mais sei lá o que, mas o que eles querem dizer mesmo é: Toca a andar que se faz tarde e temos uma lista de Anos novos para vir ocupar o teu lugar, aqui ninguém fica efetivo, por muito bom que tenha sido, sai Ano entra Ano, sempre foi assim, parece que funciona…

Vida de Ano é difícil, fazem-te uma festa quando chegas, e outra quando te vais embora, mas durante o resto do tempo estão sempre a criticar-te, hipocrisia temporal.

O que me chateia em todos os Anos novos (parece que fazem de propósito, devem aprender isto na escola de Ano Novo) é que trazem sempre aquele dilema (estúpido) de: Até quando é aceitável dizer Bom Ano?

a) Até se ver a pessoa pela primeira vez (mesmo que só a vejamos em 31 de dezembro de 2016)?
b) Até ao fim do primeiro mês do ano?
c) Até se cantarem as Janeiras ao Aníbal | Marcelo | Tino, ou qualquer outro senhor(a) que esteja a brincar de PR?
d) Até ao dia 1 de janeiro, depois que se lixe, dia 2 já é dia de trabalho, bom ano o car*lho!
e) F*ck this shit, o ano é novo mas está tudo igual, com a diferença de ter tudo menos dinheiro para gastar em janeiro e já estar tudo a pensar nos fatos do carnaval!
f) Esse dilema é realmente estúpido e não aplica porque sou Cristão Ortodoxo | Sigo o calendário Chinês!

Bom ano a todos, mas não se afeiçoem muito que ele vai embora depressa e não volta😉

Porque nem só de cartas vive o Homem…XVI – Promessas que a guerra quebrou

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Avó quem é este senhor aqui na foto? Esta és tu, mas este não é o avô!
– Qual foto querida?
– Esta!
Anabela pegou na foto, e durante micro segundos, que lhe pareceram horas, ficou imóvel com os olhos fixos.
– Avó…quem é esse na foto contigo?
– Não me lembro minha querida…mas onde é que foste encontrar esta fotografia?
– Estava numa caixa no sótão, estava a ver os teus vestidos antigos e encontrei-a. Mas não mudes a conversa, quem é? É bem giro, mas não me admira tu eras uma brasa, fiu fiu.
– Era…? Eu sou uma brasa, mas agora estou um pouco menos quente.
– Desculpa avó, faço um mea culpa -És uma brasa! Mas ainda não me disseste quem é!
-Ai filha tu és uma chata…era um amigo pronto!
– Um amigo…pois tá bem D. Anabela, com estes sorrisos eram mais do que amigos, conta lá vá lá. A foto não diz mais nada a não ser ‘ Prometo-te que volto’. Volta de onde, e porquê a promessa?
– Pronto…sabes filha, muitos anos anos de eu conhecer o teu avô namorava com este rapaz. Ele era belo, simpático e muito charmoso. Frederico era o nome dele. Estávamos completamente apaixonados e ficámos noivos em segredo, o teu bisavô dizia que ele era um malandro tudo porque andava de mota e fumava. Combinámos casar em segredo, mas entretanto estalou a guerra e ele foi chamado… tirámos esta foto dois dias antes de ele partir para a guerra. É a única recordação que me resta.
Os olhos de Anabela estavam mareados em lágrimas. – Anos mais tarde conheci o teu avô casamos tivemos filhos lindos e netos ainda mais lindos, mas no meu coração ficou sempre este vazio.
– Desculpa avó não sabia…
– Eu sei filha. Não pensei que não amei o teu avô, muito pelo contrário, amei-o muito, mas ficou aqui algo não resolvido. Todos os anos quando vou à campa do teu avô passo na campa do Frederico, deixo uma flores e fico ali um pouco a pensar, dá-me alguma paz.
– O avô alguma vez soube?
– Claro que sabia, e não se importava! Foi ele que me incentivou a visitar a campa do Frederico pelo menos uma vez por ano, quando o avô morreu passei a visitar os dois únicos homens da minha vida.
– Da próxima vez vou contigo avó.
– Obrigado minha querida, terei muito gosto em que venhas.

Cartas de uma tarde de verão II – A resposta

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Lisboa 1939

Querido Alberto

Fico muito agradada com o retrato que me enviaste. Foi um verão excepcional, mas como te disse na altura nao sou mulher de um homem só. A minha liberdade só será quebrada quando encontrar o amor da minha vida… O que procuras numa mulher certamente nao serei eu a dar-te. Se quiseres um conselho de amiga mantém a tua mulher por perto, talvez ela te possa dar o que eu nao posso. Guarda as tuas promessas para quem as queira.
Paris nao me diz nada, asim como tu também não. Nao tens o que procuro num homem, é certo que tens dinheiro, bons modos e um encanto muito agradável, mas falta-te a liberdade de espirito. Peço-te que nao guardes rancor.
Envio-te um retrato meu para que me recordes com amizade. Prometo nao te esquecer, mas não me peças para te amar…esse é um privilégio que nao te posso conceder.

Um beijo de despedida

Francisca

Cartas de uma tarde de verão

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Foz do Arelho 1939

Minha querida Francisca, espero que te encontres bem.

Envio-te este retrato (tirado pelo meu primo Ricardo) do nosso último dia de férias. Recordo-me perfeitamente (como se fosse agora) das nossas palavras, eu prometi-te que te faria a mulher mais feliz do mundo e tu respondeste-me (e bem) para guardar essas promessas para a minha mulher! Ainda não estava refeito da tua resposta quando me beijaste apaixonadamente! Ainda sinto aquele beijo, o sabor dos teus lábios misturados com água, simultâneamente salgado e doce.

Devo dizer que nunca conheci uma mulher como tu, bela, independente mas acima de tudo com uma inteligência capaz de envergonhar qualquer homem. Bem me dizia o Ricardo: Aquela mulher é um furação, por onde passa deixa tudo virado do avesso, e assim ficou o meu coração, a minha mente e toda a minha vida. Pensei que estava enfermo, visitei médicos e curandeiros…mas no fim resignei-me, o meu mal era outro!
Estou a pensar ir até Paris passar uma temporada, gostaria que viesses comigo. Antes que me perguntes, a Luísa não vem. Bem sabes que uma separação acabaria com a sua reputação, mas arranjámos um certo entendimento, ela decidiu ir para Óbidos e eu ficarei em Lisboa, com os meus negócios. Desta vez estou pronto para cumprir a minha promessa…assim tu me deixes.

Aguardo, com o coração nas mãos, por uma resposta tua. Bem sei que tu és um canário de rua e não de gaiola, uma ave canora que só é feliz livre, eu apenas quero ser parte dessa felicidade.

Com amor, volúpia e saudades

do sempre teu Alberto

Porque nem só de cartas vive o Homem…XV – Margarida a Casamenteira

1Margarida não tinha muito jeito para falar inglês, nunca se ajeitou a fazer bordados, ainda tentou aprender a tocar guitarra mas sem qualquer resultado. Mas havia uma coisa que a Margarida fazia bem como ninguém – Juntar pessoas!

Aos 7 anos juntou a Carla e o Alfredo no recreio da escola, hoje estão casados e têm 4 filhos, Margarida é a Madrinha da mais velha. Aos 12 juntou o Pedro e a Filipa e resultou bem durante algum tempo, até aparecer o Ricardo, não a Filipa não se apaixonou pelo Ricardo, mas já o Pedro… Mas nada que abalasse a veia casamenteira de Margarida, aos 17 conheceu o seu Zé, agarrou-o por um braço e nunca mais se largaram, aos 21 enquanto a prima Joana passava as férias em sua casa, juntou-a ao seu cunhado Hugo, afinal nem Joana nem Hugo queria servir de vela para Margarida e Zé.

Quando tinha 39 anos juntos Rosália e Fernando, duas almas sozinhas, residentes no lar onde Margarida era assistente. O facto de Rosália ter uma bacia deslocada e Fernando ser surdo que nem uma porta, a demoveu de tornar a vida daqueles dois idosos mais colorida.

Mais recentemente Margarida juntou André e Liliana. Margarida além de trabalhar durante as manhãs num lar, fazia também a partir das 19h umas limpezas numa empresa. Era um edifício grande, com muito chão para limpar e mesas para arrumar. Embora fossem ao fim do dia, já depois do expediente da maioria dos funcionários, era comum encontrarem alguns que ficavam até mais tarde. Por norma Margarida começava pela sala das vendas, enquanto a sua colega arrumava a sala de reuniões. Tinham ordem para perguntar primeiro se podiam começar a limpar, sempre que se encontrasse algum trabalhador ainda no seu posto. André era sempre o último a sair, gostava de ficar até mais tarde, depois de todos saírem era o momento em que era mais produto, o silêncio permitia-lhe organizar o trabalho para o dia seguinte.

– Boa tarde André ainda por aqui?

– Já estou quase a sair, falta-me só organizar aqui uns papeis, mas se quiser pode começar a limpar que não incomoda.

– É sempre o último a sair, não tem vontade de ir para casa, descansar para junto da família, da namorada…

– É igual Margarida, a minha família está toda no norte, à minha espera em casa nem cão nem gato…e muito menos namorada…pelo menos aproveito para trabalhar.

– Aproveite a vida menino…olhe que o tempo que passa a trabalhar não lhe trará felicidade. Eu se não fosse o facto de ter a minha Andreia na universidade não andava aqui a limpar depois de um dia de trabalho.

– É isso que os pais fazem Margarida, sacrificam-se pelos filhos.

– Mas vale a pena André, vale muito a pena para ver aquela menina chegar longe. Não é por ser minha filha, mas o raia da miúda é mesmo inteligente e boa aluna. Por ela trabalharia dia e noite, tenho muita sorte em ter uma menina tão boa.

– A sua filha tem muita sorte em ter uma mãe como a senhora!

Margarida gostava de falar com André, porque ao contrário da maioria dos outros trabalhadores que estavam na empresa àquela hora, ele não a tratava como se fosse um ser invisível.

Depois de umas semana sem ir fazer limpeza devido a uma queda que havia dado, Margarida voltou à sua rotina e ao seu segundo trabalho. Como habitualmente Margarida começa a limpeza pela sala das vendas, desta vez não está só o André na sala, mas também uma rapariga muito bonita. Devia ser nova, aquela mesa estava desocupada fazia tempos.

– Posso começar a fazer a limpeza ou preferem que espere?

– Olá Margarida, então e essas férias? Foram boas?

– Olá André, não foram férias, antes fosse. Dei uma queda e olha…

– Mas está tudo bem?

– Sim já está tudo bom, disse Margarida sorrindo.

– Posso começar a limpar?

– Liliana importas-te que a Margarida comece a limpeza? perguntou Ricardo.

Margarida reparou no olhar brilhante que André tinha quando falou para a rapariga.

– Claro que sim, estou quase a acabar! Respondeu a moça.

Qual santa Antónia casamenteira, Margarida começou a engendrar um plano para juntar estes dois. O primeiro passo era saber se a rapariga tinha namorado, não tinha aliança e era demasiado nova para estar casada. Confirmou que vivia em casa dos pais quando, ao ir despejar o lixo, ouviu uma chamada de Liliana para que o pai a fosse buscar.

– Então Liliana à espera de boleia?

– Sim, estou sem carro e o meu pai ficou de me vir buscar, mas hoje parece que vou ter de esperar bastante, está preso no transito… um acidente de um camião no meio da estrada.

– O André deve estar a sair, se lhe pedir ele dá-lhe uma boleia com toda a certeza.

Liliana ficou vermelha, a sua pele branca encheu-se de sangue.

– Não é preciso, não faz mal eu espero ou chamo um táxi ou assim.

André ia a sair naquele momento, e Margarida aproveitou para atalhar a foice.

– André olha que a menina está sem boleia hoje, não vai ficar aqui sozinha até o pai chegar. Nós só saímos daqui a uma hora e meia e a menina não pode ficar aqui sozinha. Podes dar-lhe uma boleia? Disse Maria piscando subtilmente o olho.

– Err.. Claro que sim disse André meio atrapalhado, mas percebendo a dica de Margarida.

– Não é preciso, não precisas de te incomodar…a sério, respondeu Liliana.

– Claro que é preciso! disse Margarida, daquela forma que só uma mãe sabe dizer, Então tem algum sentido ficar aqui este tempo todo à espera quando pode ter a boleia de uma colega de trabalho. E olhe que o André é bem jeitosinho, tivesse eu menos 20 anos e não fosse o meu Zé o amor da minha vida e não sei não…

André estava cada vez mais atrapalhado, mas Liliana percebeu que era melhor do que estar à espera.

– Olha se não for mesmo muito incomodo eu aceito a boleia.

– Claro que não é incomodo, onde moras?

– Na quinta de Santo António, ao pé do Aki, respondeu Liliana.

– A sério? Eu também moro aí perto, moro por cima da pastelaria pérola.

– Estão a ver até são vizinhos e tudo, é o destino meus meninos é o destino.

Ao ver o carro arrancar do estacionamento, Margarida sentia que tinha feito a sua magia novamente. André e Liliana ainda não o sabiam, mas acabavam de ser juntos pelo destino, e pela ajuda preciosa de Margarida.

Porque nem só de cartas vive o Homem…XIV – A cabeça nas nuvens

1– Rita, ouviste o que te disse?

– O quê? Estava distraída, não percebi….

– É disso mesmo que eu falo! Nunca ouves o que te digo, parece que não queres saber de nada, às vezes até parece que não queres saber de mim!

– Não sejas tolo é claro que quero saber de ti, mas sabes como eu facilmente me distraio!

– Dizer que facilmente te distrais é ser muito benevolente, tu vês um passarinho a voar e esqueceste do que estavas a fazer…

– O quê, não estava a ouvir…

– Tás a ver, lá estás tu outra vez!

– Estava só a brincar, estava a ouvir-te perfeitamente. Sou assim distraída e depois?

– Tens sempre a cabeça nas nuvens!

– Mas pelo menos é uma nuvem cor de rosa.

Porque nem só de cartas vive o Homem…XIII – Zé Cambuta

1José já não sabe ser criança. Da fisga apontada aos pardais dispara pequenas pedras, não são para matar, apenas para passar o tempo. Na plantação de açúcar todos o tratam por Zé Cambuta, devido à baixa estatura e idade. Dia após dia ajuda na apanha da cana, ainda não tem idade para cortar, por isso faz apenas pequenos molhos que transporta à cabeça para o tractor. José sonha em ser advogado, para um dia poder defender todos os que sofrem de injustiças.
– Quero ser advogado na América!
– Mas tu sabes onde é a América?
– Sei mais ou menos que fica do outro lado do mar! A professora disse que é uma terra onde todos os que querem podem ser alguém!
– Isso não sei filho, mas seja que na América ou aqui na plantação, estás destinado a grandes feitos!
– Mamã o destino é aquilo que nós queremos fazer da nossa vida…
– Então vamos apanhar mais cana para te ajudar nesse sonho!
…………………………………………………………………
Zé nunca chegou a ser advogado, tornou-se capataz do conjunto de plantações da sua zona! O seu sonho não desapareceu, apenas se transformou! Zé é capataz mas não gosta de mandar, criou a primeira cooperativa de trabalhadores e melhorou significativamente as condições de todos os que trabalham nas plantações. De um velho barracão criou uma pequena escola, para que os filhos dos trabalhadores pudessem ansiar a mais do que trabalhar numa plantação de cana. Maria é a professora, é também a mulher que todos os dias aquece o coração de Zé Cambuta.
– Não tens pena de nunca ter seguido o teu sonho Zé?
– Mas eu segui o meu sonho, só não faço a advocacia com os livros, mas sim com o coração. Ser advogado não era um sonho, era apenas o meio para poder realizar o meu sonho – Ajudar os outros.
– Gosto de ti Zé! Gostamos todos, os miúdos fizeram este pequeno texto para ti!

” Nós gostamos do Zé Cambuta porque ele é nosso amigo. Criou a escola para nos dar educação e nos ajudar a ser alguém. Zé é só Cambuta no nome, porque no coração é muito grande. Gostamos muito de ti Zé”

Porque nem só de cartas vive o Homem…XII – A receita do amor

1Joana sonhava com um amor, não precisava de ser um grande amor, um daqueles que roubam a lua e as estrelas! Bastava que fosse um amor sincero, um amor remediado mas honrado! Ricardo só queria amar, queria poder passar os dias ao lado de alguém que o fizesse sentir bem! Alguém que lhe desse vontade de dizer disparates, que provocasse comichões na barriga quando visse o número dela no telefone.
Quando os dias pareciam todos iguais, a seguirem-se uns atrás dos outros, eis que o inesperado acontece. Foi um choque frontal e café espalhado por todo o lado, no chão, nas mãos, nas roupas de Joana e Ricardo e na D. Rosa que foi apanhada no meio deste acidente. Pararam um segundo a olhar um para o outro, mas esse segundo pareceu a ambos uma eternidade… Ricardo avançou:
– Desculpa não foi por mal, ia distraído e não reparei…
– Não tem problema, não me magoei e tu pelos vistos também não, é como diz a minha avô…
– O que não tem remédio remediado está! – disseram os dois ao mesmo tempo…
Rosa ainda ia reclamar pelo facto de lhe terem entornado o café em cima da saia, uma saia de veludo quase nova, comprada em 1998 na modista da rua da Prata, mas apercebeu-se que acabara de assistir a um choque de amor, e isso acalmou-a. Pensou no seu falecido Alberto e de como era garboso quando era mais novo.
O amor tem destas coisas, por vezes surge do meio da confusão, e com uma receita pouco comum:
2x 60cts dos cafés entornados
12 euros de lavandaria para as calças de Ricardo
3 Lavagens na máquina dos ténis brancos de Joana
1 Saia de veludo irremediavelmente estragada
Mas o troco compensou…um amor pequenino é verdade, mas com espaço para crescer.

Porque nem só de cartas vive o Homem…XI – Espelho Meu

ced_25071b24462bb68_c25e0977-postOlhou-se no espelho para retocar o bâton. Por vezes não reconhecia a mulher que estava do outro lado do espelho, as rugas não a assustavam mas deixavam-na apreensiva. Filipa é uma mulher bela, é vistosa e sabe disso, mas a cada dia que passa precisa de mais tempo em frente ao espelho para ser, ou tentar ser, a mulher que aparenta.
Saber envelhecer é uma arte, pensou para si mesma.

A pele já não tinha a firmeza de antes, o cabelo, loiro e bem tratado, precisava de pintura com cada vezes menos espaçamento de tempo. As pernas estavam firmes, ‘de fazer inveja a muita menina de 20 anos’ dizia-lhe amiúde o marido. A ideia de envelhecer não a assustava, mas deixava-a pensativa, e pensativa ficou ao ver-se no espelho naquele inicio de noite.
– Ah, estas aqui! Andava à tua procura, disse-lhe Ricardo ao ouvido.
– Achas que sou bonita?
– Claro que sim! Que pergunta tão tola, és a mais bonita mulher que está neste planeta, quiçá do universo!
– Não sejas parvo, não achas que estou a ficar velha?
– Acho, mas é normal Filipa, esse é o rumo do tempo, passa e envelhecemos. Mas deixa-me que te diga, se te visse na rua e não fosse teu marido teria muita dificuldade em não olhar para ti, és uma mulher tesuda, bonita e o teu cheiro…deixa-me completamente louco.
Filipa sorriu. Ricardo sabia sempre deixá-la bem disposta, mesmo que por vezes exagerasse um pouco.
-Estou pronta, vamos para dentro?
– Espera só um pouco, diz-lhe Ricardo ao ouvido enquanto a abraça por detrás.
– Porquê?
– Quero ficar um pouco agarrado a este pedaço de mau caminho que é a minha mulher. Se morresse hoje era esta a imagem que queria ter na minha mente. Mesmo quando fores velhinha, andarei atrás de ti de bengala a afugentar os velhos babões cheios de viagra. Foi o teu corpo que me fez olhar para ti na primeira vez, mas é a tua essência que me faz continuar contigo todos estes anos. Não te trocava por nada, ficaria sempre a perder, e a prova está aqui neste espelho.

Porque nem só de cartas vive o Homem…X – O Segredo de Ferreirinha

ced_25071b24462bb68_c25e0977-post” Os pássaros do Sul continuam a ser um bando de asas soltas?”

Rita trabalhava há 4 dias nesta ala quando encontrou na bata este estranho bilhete. Comentou com uma colega que soltou um longo sorriso:
– É um novo recorde. Comigo foram duas semanas.
– Mas o que é isto, perguntou Rita sem perceber.
– É uma mensagem do nosso espião, quer saber se tu fazes parte da resistência…
……………………………………………………………………………………………………… António Ferreira estava institucionalizado há 35 dos seus 56 anos. Sem família para o amparar foi acolhido nesta instituição que se tornou a sua casa. Quando aqui chegou era um maluquinho, mas actualmente o termo correto é ‘sofre Patologia’, e a de ‘Ferreirinha’ (como é conhecido pelos funcionários) combina uma psicose de cenários de guerra e espiões, com uma fixação grave pelas músicas da Mafalda Veiga. Na verdade Ferreirinha é um paz de alma, ajuda as funcionárias sempre que é preciso e é muito amável, educado e muito atento…embora tudo faça parte do seu disfarce enquanto infiltrado.
………………………………………………………………………………………………………
– Então e ele não é perigoso?
– Quem o Ferreirinha?
– Sim, afinal estamos no meio de tantos tontinhos.
– Rita, espero que não te voltes a referir a estes utentes dessa forma! Não estamos no meio de tontinhos, estamos no meio de pessoas que vêm o mundo de uma forma diferente da nossa, não é assim tão linear. Ali a Maria resolve uma equação matemática como quem pisca os olhos, o Ricardo sabe dizer-te a morada completa se lhe disseres um número de telefone fixo. Não são maluquinhos, loucos ou xalupas, são diferentes de ti, mas eu também sou diferente de ti e não me consideram maluca pois não?
– Sim tens razão, por vezes é difícil recordar isso quando estamos aqui dentro.
– Vou contar-te um segredo, eu por vezes eu escrevo uns bilhetinhos com mensagens para o Ferreirinha.
– A sério?! Não achas que isso pode reforçar as suas patologias?
– Reforçar? Ele está aqui institucionalizado há anos, e é dos únicos que ainda é sociável, com quem podes ter uma conversa, que te ajuda se lhe pedires. Que sabe o teu nome, que se lembra do teu aniversário. Às vezes acho que o Ferreirinha tem mais saúde mental do muitos de nós!
………………………………………………………………………………………………………
Rita pensou no que Ana lhe dissera uns dias antes e depois de se aconselhar com ela, decidiu escrever-lhe um bilhete de resposta:

‘Se esta mensagem encriptada chegar ao destino certo informo que:

Geme o restolho, preso de saudade
esquecido, enlouquecido, dominado
escondido entre as sombras do montado
sem forças e sem cor e sem vontade’

PS: O seu trabalho de infiltrado está a ser muito útil, estamos a considerá-lo para uma promoção, mas não comente nem se manifeste com ninguém – ainda é SEGREDO!