Carta do Silêncio

24 Foi sempre nos silêncios que mais dissemos um ao outro. Foram longas as conversas que tivemos sem pronunciar-mos uma única palavra. Foi esta estranha capacidade de nos entendermos sem dizer uma simples palavra, que me fez perceber o quanto te amo.

O silencio foi sempre nosso cúmplice, era apenas nosso. Nunca foi o olhar, nunca foi o toque, mas sim a ausência de palavras que nos completava. Foi no silêncio que mais trocámos um com o outro. Mas nem todos os silêncios foram positivos. Muitos foram avassaladores, foram tristes e amargos, mas na sua maioria eram doce e gritavam alto no vácuo do som.

Hoje, não te tenho mais perto de mim. Silenciou-se  o meu silêncio, o nosso silêncio. Hoje escuto as palavras que dirigem,  não as entendo. As palavras que digo, simplesmente não me preenchem pois são vaziam de tudo, é um esforço estas pequenas junções de letras tão cheias de nada.

Disse-te amo-te muitas vezes sem abrir a boca, nunca foi preciso! Tu entendias que este silêncio era necessário, era para  mim a única forma de levar em frente todo aquele turbilhão de emoções. Talvez tenha sido fraco, talvez não tenha percebido que emoções tão fortes não podem sobreviver na ausência.

No entanto não me arrependo dos silêncios. De todas as vezes que ouvi a palavra amo-te, nenhuma foi tão forte como as ditas pelo teu silêncio. Hoje os silêncios parecem-me forçados. Tu partiste, nesse dia em desespero pedi-te que não fosses, talvez tenha sido exagerado nos meus silêncios, talvez não tenha percebido que precisasses de algo mais. Na verdade as palavras podem magoar, mas também podem acalentar. Não tive a capacidade de perceber, que por vezes seria necessário. Nem sempre os silêncios foram entendidos da mesma maneira.

Amei-te no silêncio, perdi-te no silêncio. Hoje os meus dias são preenchidos de palavras, quase todas ditas sem nexo, são  diálogos que não me preenchem. Sinto a tua falta. Falta-me o teu silêncio, simplesmente faltas-me tu. Se pudesse voltar atrás talvez não repetisse todos estes silêncios, talvez  te tivesse dito as palavras que poderiam ter-nos aguentado.

Foi nos silêncios que te disse amo-te, que te beijei, que te perdi.

Se o silêncio uniu-nos, é justo que tivesse sido ele a separar-nos. Talvez um dia te encontre novamente, talvez um dia voltemos a partilhar a ausência de palavras, será a única forma de te dizer tudo aquilo que através das palavras nunca consegui.

Obrigado por todos os silêncios que me proporcionaste.

“Words like violence
Break the silence
Come crashing in
Into my little world
Painful to me
Pierce right through me”

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s