Carta para um pai ausente

1Pai, uma palavra sempre pareceu estranha ao sair da minha boca. Não posso dizer que tenhas estado muito presente. Na verdade a ausência fez de nós dois estranhos, mas dois estranhos que sempre gostaram um do outro. Tenho pena que não me tenhas falado mais vezes sobre o que sentias, mas tenho mais pena ainda de nunca to ter perguntado.

Arrependo-me dos anos que passei zangado contigo, dos anos em que quase não nos vimos a não ser nos dias de protocolo. Na verdade nunca te esqueceste do meu aniversário, todos os anos me ligavas nem que fosse para falar durante 2 minutos. Muitas vezes quase não recebias palavras de volta, eram pequenos monólogos que ambos nos resignávamos a aceitar. Tenho pena de não me ter apercebido que estavas a envelhecer, que a tua saúde já não era a melhor, que as tuas mágoas se atenuaram um pouco e que talvez precisasses de mim.

Um dia, sem aviso prévio foste embora. Ficou um vazio mim. De repente já não te podia pedir perdão, já não te podia perguntar o que tinha sido a tua vida, de onde tinhas vindo quais foram os teus sonhos, as tuas paixões as tuas raivas. Sei que tinhas orgulho em mim, nunca mo disseste, mas eu sei que tinhas. Fui obrigado a remexer na tua vida, tive de a catalogar, de organizar, colocá-la em caixas . Aos poucos fui-me apercebendo de quem eras, li sem despudor as tuas cartas guardadas, as fotografias de que tinhas na tua carteira, uma minha uma do avô e outra do Jorge. Via as tuas 560 fotografias a preto e branco, recordações de um António que nunca conheci, esse António já tinha partido à muito quando eu nasci. Impressionou-me o facto de nas fotografias mais recentes quase não sorrires. O teu sorriso desapareceu com os anos. Fruto de uma guerra agressiva, fruto das perdas de duas mulheres, frutos de outras tantas perdas intensas que foste tendo ao longo da tua vida.

Hoje fui visitar-te, levei-te flores frescas, na verdade foi a Andreia que as escolheu. Sentei-me um pouco e conversei contigo. Mais uma vez falei-te da pequena partida que te preguei, dei-te um funeral cristão, a ti um ateu convicto. Sei que não levaste a mal, na verdade até achaste graça, imagino que tenhas ficado inicialmente danado, mas foi a minha escolha. Contei-te como limpei a Hermes Baby, e de como esta semana me ligaram para falar sobre ti. Ia-me esquecendo, este ano não paguei as cotas dos antigos combatentes, já não aceitam eu não posso ser sócio, e tu já não estás por cá.

Ainda não foi hoje que tive a coragem de te dizer, que sinto a tua falta! Na verdade senti a tua falta toda a vida. Arrependo todos os dias de nunca te ter perdoado a ausência destes anos todos. Odeio quando a vida se torna um cliché, mas desta vez foi verdade, só senti verdadeiramente a falta depois da tua partida. Talvez um dia te diga tudo o que ficou por dizer, talvez um dia a nossa conversa comece por aí.

Fiquei só quando partiste, rodeado de pessoas que me amam é certo, mas só. Os meus filhos nunca terão um avô, e eu não voltarei a ter um pai.

Espero que esta carta te chegue intacta. Sei que não terei uma resposta, mas isso não importa agora.

Com saudades sinceras,

O teu filho

Anúncios

3 pensamentos sobre “Carta para um pai ausente

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s