Porque nem só de cartas vive o Homem…III

11Era um pequeno ritual semanal, um segredo escondido da Madre Superiora. Todas as terças Alice, Fernanda, Ana, saiam do convento e iam comprar os bens que não produziam no convento. A velha carrinha lá estava estacionada em frente ao portão. Hoje levavam Maria com elas, era a primeira vez que saia do convento com as outras irmãs. Maria era nova tinha 25 anos e desde cedo sentia vocação para Deus, para alegria da sua avó materna e desgosto do pai. Ao saírem dos portões do convento Alice, a mais velha diz a Maria.
– Maria vamos contar-te um pequeno segredo, mas tens de prometer que o guardas!
– Um segredo, perguntou Maria intrigada.
– Sim, um segredo que deve ficar bem guardado em especial da Madre Superiora.
– Ai ai ai, assim já me estão a assustar, não sei se quero saber nada disso, somos irmãs, tementes a Deus e dedicadas a uma vida de reclusão!
Esta resposta deixou as irmãs de pé atrás, talvez fosse melhor não falar nada com Maria, talvez o segredo delas não fosse bem percebido.A viagem seguiu em silêncio, Fernanda ligou o rádio para ouvirem um pouco de músicas, assim sempre se distraiam e não pensavam mais no segredo. O dia passou normal, e antes de regressarem a casa Maria, que estava em pulgas para saber o segredo, perguntou timidamente…
– De manhã estavam a falar-me de um segredo… eu sou boa a guardar segredos, desde que não vá contra os nossos princípios cristãos…
– Talvez seja melhor não saberes, diz Ana.
– Eu não conto nada!
– Prometes?
– Juro pela Santidade do Senhor!
– Não blasfemes rapariga, retorquiu Ana!
– Perdoa-me irmã, mas prometo que não conto a ninguém!.
– Ok, acham que devemos contar, pergunta Maria às outras irmãs.
– Por mim sim, diz Alice.
– Por mim também, e acabamos já com isto diz Fernanda.
– Seja o que Deus quiser…
Ana abre o porta luvas e por detrás de uma bíblia, retira um maço de tabaco.
– Todas as terças cada uma de nós fuma um cigarro, apenas um! Antes que te prenuncies, não é pecado, mas somos humanas e este é um dos pequenos prazeres mundanos que temos. E assim sempre podemos rezar com mais intensidade para nos redimirmos desta pequena fraqueza.
– É este o vosso segredo? Perguntou Maria enquanto sorria, Quem é que tem lume?
– E pronto este é o segredo Maria.
– O nosso segredo….

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Carta “Para o Chamiço com amizade”

Olá António como tens passado?

1No ano que passou foi mais difícil estarmos juntos, pelo menos na segunda parte do mesmo. Como estão esses projetos a correr? Nós deixámos alguns pendentes, espero que 2015 seja o ano da realização dos mesmos. Existe papel fotográfico para abrir, palavras para serem escritas, discos para serem escutados. Acho que não chegaste a conhecer a minha colecção de vinis, nada que se compara à tua, bem tratada e estimada, coleção, mas aos pouco cá vou juntando um disco e outro.

E tu o que tens feito? Como está a tua vida? Ainda gostas de chocolate? Devo-te um jantar.

Tenho coisas tuas aqui em casa, na verdade nem sei bem (pelo menos um livro do peixoto) provavelmente terei mais, mas se tenho não foi com intenção de me apropriar delas, mas porque sou um esquecido ;).

Amigo, eu não sou homem de resoluções, mas espero que este ano possamos inverter a tendência dos últimos 6 meses e que nos consigamos encontrar com mais frequência.

Um abraço desta aldeia fria

Até sempre

Carta para o Vasco v.031_015

12014 foi um ano rápido, intenso e um tanto ou quanto estranho. O tempo, esse efémero elemento, comandou a minha vida a toque de caixa. Empregos perdidos, empregos ganhos, casamentos de amigos, nascimentos de crianças, arrelias e alegrias tudo condensado em 365 dias que agora vão ficar numa prateleira da memória. Não sou pessoa de balanços ou resoluções, sou um semi fatalista, em parte porque acredito que o que tiver de ser será, mas também porque sei que sem esforço e procura dificilmente conseguimos o que queremos.

Uma resolução de começo de ano de uma pessoa amiga foi “ser mais tolerante”, e na verdade aquilo ficou a ecoar na minha cabeça nos primeiros minutos de 2015…talvez seja isso mesmo que eu precise, de ser mais tolerante com os outros, com os que me rodeiam, com os que vão entrando e saindo da minha vida, mas principalmente ser mais tolerante comigo. Ficaram projetos por realizar, “não tenho tempo, estou cansado, amanhã faço”, pessoas por visitar e conversar, “amanhã ligo, estou sem saldo tinha de ir carregar o telefone”. Tanto para fazer e a percepção de que o tempo se me escapa pelos dedos deixa-me angustiado. Talvez sendo mais tolerante comigo mesmo, o tempo seja mais amistoso, e passe um pouco mais devagar.