Carta para a Morte

by morten germund Leva de vez este corpo vazio de mim!

Não te espero como se espera um convidado, já somos  velhos conhecidos! Quando bateres à minha porta não terei problemas em abrir-ta!  É irónico bem sei, mas de certa maneira tenho de te agradecer, pois foi graças a ti que me fui mantendo vivo.

Foi na expectativa da tua chegada que os meus dias foram passando, lentos e arrastados. Pensei que chegasses ontem! Senti a tua mão gelada sobre o meu ombro, e quase te ouvi dizer “- vem comigo”. Eu vou não te preocupes! Já tenho um fato preparado para esse dia, não sei se alguém mo vestirá, mas isso pouco importa a esta velha carcaça, carunchosa. Desfeita será pelos bichos da terra… Pó…no final é isso que deixamos cá…Pó! Uns quantos, sortudos, deixam memórias…eu nem isso, levo tudo comigo.

Tive uma vida cheia, mas de um grande vazio! Vivi, vivi intensamente, sim vivi como se me esperasses no outra lado da rua de cada. Foram muitas vezes te chamei, muitas vezes desejei que viesses mais cedo buscar-me, quantas vezes forcei eu o nosso encontro?! .

Sei que estás perto, aí sentada a meu lado enquanto a minha mente, essa sim forte e saudável, viaja. Não te temo, mas também não te amo! Porque o deveria, és parte de mim desde o dia em que nasci! És parte do meu intimo, da minha vida! Não te amo, mas também não te odeio! Mas não me esqueço de como a levaste-a primeiro, fez no mês passado vinte e três anos! Foram vinte e três longos anos de solidão, de uma amargura que lentamente me enegrecia o coração. Vinte e três longos anos em que forcei os nossos caminhos. Pensei que fosse esta a forma, para através de ti, a poder rever.

Nunca percebi se foi castigo, nunca me deste a mão! É este o preço a pagar por te afrontar? É isto que ganho em querer que me leves contigo, viver? Vida é demasiado lisonjeiro para o que foram estes últimos anos…arrastei-me, sobrevivi a contra gosto. Fui, sou cobarde!

Castigo, ironia da vida, ou caprichos da morte!

Sinto cada vez mais perto o teu abraço gelado! Vem, envolve-me e reconforta-me, estou impaciente!

Sinto já aqui o sabor metálico do teu beijo!

Leva-me nessa barca, para onde vão as almas condenadas… leva-me de volta para junto dela!

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