Porque nem só de cartas vive o Homem…V – A Pesca

0_2Para dizer a verdade no começo nem gostava de pesca! Vinha para estar sozinho, pois embora não me agradasse a pesca, agradava-me a solidão que ela me trazia. Eu, água pelos tornozelos e tempo para gastar.

Comecei a pescar depois do meu primeiro ataque cardíaco…tive sorte disse o médico.

– … da próxima poderá ser bem pior! Desta vez teve sorte de ter alguém com competência para o socorrer de imediato, mas e para a próxima?

– Para a próxima é uma incógnita doutor! Pode nem haver uma próxima…
– Eu garanto-lhe que haverá uma próxima! Se continuar assim e não tiver qualquer tipo de cuidado com a sua saúde, morrerá cedo! Você é um homem novo, tem 40 anos mas o seu corpo começa a reagir como o de um homem de 70!

Se quer continuar vivo tem de seguir,por favor, os meus conselhos.

Aquela era uma fase da minha vida onde eu mesmo não sabia se queria estar vivo. Não tinha pensamentos suicidas, nada disso, mas era como se os meus dias se arrastassem uns atrás dos outros, lentos, cinzentos…vazios. Entrei numa espiral descendente, silenciosa e invisível. Psicologicamente estava arrasado, mas tentava não o demonstrar aos outros. O físico começou a ceder também, comia mais do que tinha vontade, não tinha qualquer cuidado com sal, gordura ou doces. Estava com peso a mais, algo estranho para quem sempre fora magro como eu.

Hoje compreendo que estava a tentar preencher, literalmente, um vazio criado pela sua falta. A Filipa tinha morrido 2 anos antes disto tudo. Um dia depois de uns exames de rotina, ela chega a casa e diz-me secamente!
– Tenho cancro!
De repente parece que deixei de ouvir, foi como se um zumbido agudo me tivesse tirado toda e qualquer audição.
– Tens a certeza? Tens de fazer novos exames, esses podem não estar correctos! O que te disse o médico?
– Que tenho cerca de 5 meses de vida! Que posso fazer quimioterapia, mas que no máximo me prolongará por mais 3 a 6 meses de vida!
– Não! Tu tens de fazer novos exames e…
– Estes já são os segundos!
– Como assim…e não me dizias nada?!
….
O médico tinha-se enganado, a Filipa teve mais 6 meses de vida. Morreu 6 meses e 13 dias depois de me ter dito que tinha cancro. Não fez quimioterapia, decidiu que se não a ia salvar, que não iria fazer. Queria viver o tempo que lhe faltava com alguma dignidade, à sua maneira.

Custou-me imenso! A dor da impotência era como uma faca, fria e afiada, que me cortava sempre que pensava neste assunto.  Tive de respeitar a sua decisão, era só dela, ela tinha esse direito! Morreu num chuvoso dia 12 de fevereiro… Assim de repente tiraram-me o chão…6 meses que me parecem 2 minutos…fim, dor, desorientação…dor, dor, dor, Dor!

A pesca foi ideia do meu amigo psicólogo, Pedro. Ele não me acompanhou clinicamente, mas foi um amigo presente. Um dia em conversa sugeriu que eu me afastasse mais, “para te reencontrares tens de sair de ti”. Foram palavras que estranhamente fizeram todo o sentido para mim. Os dias que passei sozinho naquela albufeira, obrigaram-me a enfrentar algumas coisas que eu evitava com a comida e o álcool.
Passaram exactamente 7 anos desde que comecei a pescar aqui. Hoje já só venho para recordar. Recordo os momentos, os risos, as discussões, mas acima de tudo a pessoa que a Filipa era, é, no meu coração.Tenho duas filhas pequenas e uma esposa fantástica, recuperei a minha vida, mas não esqueci. Não quero esquecer, não vou esquecer!

Venho à pesca para recordar, para estar só. Venho à pesca porque aqui posso estar sozinho contigo.

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