Porque nem só de cartas vive o Homem…VI – João o Engraxador de Almas

João foi engraxador, aliás é um engraxador! Usando um paralelismo já muito escutado “podes tirar o homem da graxa, mas não podes tirar a graxa do homem!”

sapeurs9Todos os dias de manhã a caminho do trabalho paro aqui, na verdade nem é tanto pelo serviço, que embora de excelência, já deixou de ser há muito, importante para a maioria das pessoas!

Quando me iniciei no mundo nos negócios, há 30 anos atrás, era tudo muito diferente. O meu padrinho, mentor e amigo sempre me disse: ‘Nunca confies num homem que não tenha os seus sapatos impecáveis!’

Há mais de 30 anos que engraxo os sapatos, há cerca de 15 anos descobri o João, um miúdo novo que me abordou no caminho. Normalmente a caminho do trabalho não passava por aquela rua, mas naquele dia calhou…

– Bom dia senhor, desculpe assim o mau jeito…reparei que tem uns sapatos impecavelmente limpos. Eu sou engraxador, costumo estar por nesta rua. Se algum dia decidir experimentar os meus serviços está à vontade! a primeira é uma oferta, se não gostar do serviço, pelo menos não paga por ele!

Aquela abordagem foi ao mesmo tempo estranha, mas também familiar. Fez-me recuar muitos anos antes, no começo da minha carreira de comerciante, quando andava porta a porta a tentar vender.

– Eu costumo ter um engraxador fixo na rua das flores, mas quem sabe um destes dias passe por aqui.

– Muito obrigado senhor, desejo-lhe um dia radiante!

Dias depois passei por essa mesma rua. Lá estava ele a engraxar.

– Bom dia! É para engraxar? Estou mesmo a terminar este cliente, diz-me este jovem de dentes incrivelmente brancos e um sorriso simples.

– Bom dia! Eu espero sem problema, afinal vai ser de graça respondi eu em tom de troça!

– Olhe que não se vai arrepender, ninguém engraxa sapatos como aqui o nosso João, respondeu-me o velhote que estava sentado na cadeira e tinha o sapato esquerdo a ser finalizado.

……………………………

– Bom dia senhor senhor Fernandes.

– Bom dia João, então e como está hoje a correr a manhã?

– Está normal, já atendi 3 fregueses, mas e uma raridade para os dias que correm, vou notando cada vez menos pessoas a procurar este tipo de serviço. Não há novos clientes. hoje em dia os homens novos já não usam sapatos…

– São os tempos a mudar João, ou acompanhamos ou ficamos pelo caminho! Olha lá… e nunca pensaste em deixar a vida de engraxador? Pelo menos há 3 anos que te vejo aqui todos os dias, de segunda a sexta!

– E ao sábado também, o senhor Fernandes é que não aparece! diz João sorridente!

– Nunca pensaste em mudar de vida? Fazer outra coisa, ter outra profissão!

– Eu não senhor Fernandes, não sei fazer mais nada, e gosto do que faço, é uma profissão suja, cansa bastante e quando chove tenho de mudar de lugar, mas é isto que eu sei fazer, esta é a minha vida!

– Sabes que eu precisava de alguém para o meu armazém… podias ir para lá trabalhar se quisesses!

– O senhor Fernandes é um bom cliente, perdoe-me a ousadia de dizer, um bom amigo. Mas eu sou como um canário, gosto de estar ao ar livre, de poder sentir o movimento da rua, as pessoas que passam, gosto de estar atento a tudo o que se passa, desde senhor do quiosque que tem uma paixão pela Maria da florista, até ao miúdos que por aqui passam e ficam a olhar enquanto eu engraxo os sapatos de algum freguês! Mas o que eu gosto mesmo é de falar com as pessoas, de as ouvir. Gosto de pensar que enquanto eu lhes abrilhanto os sapatos, não é apenas a sujeira que está a sair dos sapatos, pois enquanto eles conversam comigo sai também dor, cansaço, tristeza dos seus corações! Gosto de pensar que limpo sapatos fisicamente, mas que a minha presença aqui faz um pouco mais!

– De facto és um homem extraordinário João! A minha porta estará sempre aberta, se algum dia decidires mudar de vida, fala comigo.

Os cerca de 10 minutos que eu passava por dia com o João, de facto aliviavam-me a alma, a cabeça. Por momentos deixava de pensar em facturação contas fornecedores, dividas créditos, encomendas… naqueles momentos era apenas eu e o João, dois homens numa troca mais do que comercial. Na verdade às vezes invejo a vida do João, ele é sempre feliz, mesmo sujo de graxa, mesmo com as unhas completamente pretas. Ele é feliz mesmo com os poucos trocos que arrecada por dia, é feliz mesmo tendo um trabalho que mais ninguém nesta cidade quer fazer, que mais ninguém nesta cidade faz! Dizia-me no outro dia o João em tom de resignação:

– Já ninguém faz durar os sapatos como o senhor Fernandes! As pessoas hoje em dia, trocam tudo! O sapato já não vai ao sapateiro, e já não é engraxado, se está sem sola vai para o lixo. Mas sabe que não são os sapatos que me preocupam, nem tão pouco a minha profissão. O que me preocupa são mesmo as pessoas! anda tudo cada vez mais depressa, hoje é tudo ‘descartável’! Li esta palavra num jornal no outro dia, e isso preocupa-me. Não os sapatos, mas as pessoas, as pessoas também se podem tornar descartáveis!

……………………………

Faz mais de uma semana que não vejo o João! Estou preocupado com esta ausência. Durante cinco anos o João manteve sempre os seus 2 ou 3 lugares fixos. Já vais para uma semana que eu não o vejo! Hoje liguei para o escritório a avisar que não ia o dia todo! Estou deveras preocupado com o João! Sei que ele costumava ficar numa pensão na Rua dos Britos…

– Bom dia, por acaso o João engraxador não está por aqui, já não o vejo há uns dias, e como não é normal!

– O senhor é da família?

– Não, sou apenas amigo! O João não tinha família que eu saiba!

– Então não sabe o que aconteceu?!

– Ó mulher diga logo que me está a deixar nervoso!

– Lamento mas o João morreu…

– Morreu?! Mas como?

– Uma destas noites foi atacado por 4 bandidos. Meteram-se com ele para o roubar, quando viram que não tinham dinheiro destruíram-lhe a caixa de engraxar. Ele tentou resistir e um deles espetou-lhe uma navalha no pulmão! Diz que ele até podia ter sobrevivido, mas os cobardes fugiram e deixaram o pobre homem ali, estendido na rua a esvair-se em sangue! De madrugada os homens da limpeza encontraram-no e já estava morto.

Naquele momento o mundo parou! As palavras da mulher ecoavam na minha cabeça…O João morreu, O João morreu…

Naquele momento percebi que não fui apenas eu que perdi um amigo, o mundo perdeu uma boa pessoa, e o pior é que nem se vai dar conta disso! O João tornou-se descartável…uma vida, uma amizade perdida por estupidez, por um bando de arruaceiros que não sabem que a vida humana não tem valor, e caso tivesse, a do João seria por certo das que teria um valor mais elevado.

Nos dias seguintes tentei perceber onde estava enterrado, comprei o terreno, mandei fazer uma campa decente. A lápide ficou com a inscrição ‘Em memória de João Antunes, homem engraxador e amigo’.

Hoje já não há engraxadores de rua, os poucos que existem estão em espaços comerciais revivalistas, onde jovens de barba farta e bigode grande, tentam fazer uma espécie de engraxamento, mas usam luvas para não sujar as mãos…Um engraxador que não sinta a graxa nas mãos não pode fazer um bom trabalho.

Faz hoje dez anos que o João morreu, e finalmente é inaugurada a estátua que eu mandei fazer em honra deste meu amigo, uma pequena estátua em bronze de um engraxador e a sua caixa. A câmara municipal deu-me autorização para a colocar na rua onde conheci o João. Não houve nenhuma cerimónia protocolar, apenas os funcionários da câmara que colocaram a estátua no local, e eu, a Maria da Florista e o Francisco do quiosque.

A humanidade nunca vai saber o bem que fizeste, mas nós, os pouco que tivemos o privilégio de privar contigo, saberemos!

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s