Porque nem só de cartas vive o Homem…VIII – Filipa a Triste

sapeurs9Toda a gente achava que Filipa era uma pessoa triste. Por várias vezes lhe haviam perguntado:
– Porque está sempre com essa cara de tristeza?
Filipa respondia sempre o mesmo – É a minha cara, não tenho outra!
Passado algum tempo as pessoas achavam que Filipa não era triste, mas amargurada, e passaram a perguntar-lhe: – Que raiva é essa que trazes no coração?
Filipa farta de perguntas começou a responder: – No meu passado existem episódios que me deixaram assim.
Esta resposta satisfazia toda a gente, depois de um olhar complacente e uma palmada nas costas seguia-se sempre um -Deixa lá o tempo cura tudo ou Se precisares de falar sobre isso…
Ninguém sabia que Filipa não era nem amargurada nem triste, era apenas assim, uma pessoa que não precisava de sorrir para estar feliz, na verdade Filipa era feliz sozinha, e isso parecia incomodar todos à sua volta.
Embora gostasse de estar só, no seu espaço, entretida com os seus próprios pensamentos, por vezes Filipa pensava como seria encontrar alguém com quem pudesse partilhar esta solidão. Rapidamente estes pensamento passavam e Filipa volta a escutar a preocupação alheia de quem não concebe a vida humana solitária, e secretamente, na sua mente, vai continuar a mandá-los para …. um qualquer sítio.

Porque nem só de cartas vive o Homem…VII – As duas mães.

sapeurs9Todos os dias estes dois estranhos cruzavam olhares no autocarro. Os primeiros olhares eram tímidos e fugazes, inocentes e cheios de curiosidade. Um olhar rápido e ele reparou na madeixa loura dela. Num movimento com o cabelo, ela reparou na pequena cicatriz dele abaixo do lábio. Dois estranhos que se conheciam apenas dos olhares. Quando um deles não aparecia, o autocarro por mais cheio que fosse parecia vazio…talvez fossem os seus corações que estranhavam as ausências dos olhares.  Nestes últimos tempos ele já não disfarçava o olhar, olhava e sorria. Ela olhava para o lado, por não conseguir controlar o facto de ficar tão vermelha e fingia não ver o sorriso, mas por dentro ela sorria.

………………….

Hoje perderam ambos o autocarro, ficaram os dois na paragem. Caía uma chuva miudinha mas nenhum dos dois notou. Ele arriscou umas palavras.

– Parece que temos de esperar pelo próximo.

Ela corou e respondeu, – Sim, mas daqui a dez minutos temos outro.

– Acho que não, este é o último autocarro!

– Não pode ser, ainda são seis e meia, temos outro às seis e quarenta. respondeu ela com toda a certeza .

– Talvez o teu relógio tenha parado, já são seis e quarenta e quatro!

– A sério?! Bolas, vou ter de ligar à minha mãe.

Ele sorriu.

– Alô mamã, perdi o autocarro…sim o relógio deve ter parado…não podes? ..Ok vou  ligar-lhe beijinho mamã! Desligou a chamada para logo de seguida fazer outra.

– Olá mãe, perdi o autocarro…sim não me apercebi, podes vir buscar-me?… Ok obrigado, sim estou aqui… ok até já, beijinhos.

– Pronto daqui a 15 minutos a minha mãe vem buscar-me, nós fazemos o mesmo trajecto, se quiseres podemos dar-te boleia.

– Olha e eu aceito, assim evito ligar ao meu pai que de certeza ia demorar pelo menos uma hora a chegar aqui.

– Já agora sou o Ricardo!

-Eu sei! Respondeu ela sorrindo.

– Sabes? Perguntou Ricardo curioso.

– No outro dia o teu amigo chamou-te e eu ouvi.

– Ok, então já tinhas reparado em mim?!

– Já te tinha visto uma ou duas vezes! respondeu-lhe ela a sorrir.

– E tu como te chamas?

– Alice.

– A sério? Adoro esse nome, é o nome da minha avó!

– Alice corou e desta vez não deu para disfarçar.

– Posso fazer-te uma pergunta? Perguntou Ricardo sem certeza.

– Acho que sim, respondeu-lhe Alice.

– Fizeste duas chamadas, em ambas chamaste mãe….

Alice sorriu…

– Não penses que sou homofóbico, ou assim, mas achei curioso.

– Porque haverias de ser homofóbico?

A conversa estava a tornar-se um pouco estranha para Ricardo que não estava a perceber nada.

– Por nada, respondeu Ricardo cada vez mais confuso.

Alice sorriu, já tinha percebido o que Ricardo estava a pensar, mas decidiu deixá-lo um pouco envergonhado, ele ficava adorável assim encavacado.

– Sim tenho duas mães, respondeu Alice. Mas não da forma como pensas. Tenho uma mãe biológica e outra adoptiva.

– Ahhh! Exclamou Ricardo sorrindo.

– Também tenho dois pais, quatro avós e quatro avôs. Fui adoptada quando era pequena porque a minha mãe biológica não tinha condições para me criar, mas nunca perdemos o contacto e a vida deu muitas voltas. É uma dinâmica familiar estranha, mas tudo corre bem, porque existe amor verdadeiro entre todos.

– Bem que história. Olha já eu não tenho mãe, morreu quando eu era pequeno, mas em compensação tenho um pai que vale por 100.

A chuva já tinha parado, nenhum dos dois se tinha apercebido. Os 15 minutos na realidade foram 30 mas pareceu ambos poucos segundos.

– A minha mãe chegou, vamos?!

Carta da Amizade

2A amizade é uma coisa boa que cresce dentro do nosso peito. Ela alimenta-se de sorrisos, abraços e de pequenos gestos. Muitas vezes a amizade pode ser confusa,  é preciso olhar bem para ela e não a tomar por outra coisa, como amor ou paixão por exemplo. Não é estática, não é como um conjunto de tijolos que se vai empilhando para se tornar cada vez maior.A amizade adensa-se com a proximidade, mas cresce com a saudade, mas a saudade e a distância podem tornar a amizade mais pequena, acabando por desaparecer, mas nunca na totalidade, restará sempre uma memória.

Podemos ter amigos durante umas horas ou a vida toda, não se pode medir a força de uma amizade pelo tempo de um relógio ou um calendário, minutos, horas, dias ou anos nem sempre significam muito numa amizade, no entanto existe uma grande probabilidade de ser mais forte com o passar dos anos (mas como referi atrás, não sendo alimentada pode acabar por definhar).

Se tivesse de explicar a alguém o que é amizade, a melhor analogia seria sempre a de uma flor, começa numa pequena semente, cresce tornando-se viçosa, mesmo que venha o inverno e a flor fique seca e murcha. A semente, essa, está lá e basta regá-la com mais uns sorrisos, uns abraços para que acabe novamente por florescer. Por vezes as amizades (re)florescem com umas simples palavras, por vezes é um ‘Tinha saudades tuas’ outras vezes é um ‘Desculpa’.

A amizade dá-nos coisas maravilhosas, e a principal são os amigos! Eles são de várias cores e géneros. Alguns amigos são altos, outros são baixos, uns são louros de cabelo comprido e outros usam barba. alguns até surgem em forma de animal. Na verdade isto dos amigos às vezes é difícil de explicar, porque alguns são chatos e muito rabugentos, alguns são totalmente diferente de nós, mas o engraçado é que todos acabam por ter um espaço nesta bolha de felicidade que é a amizade.

Tentar perceber estas coisas da amizade só complica mais as coisas, tudo fica muito mais simples se não pensarmos muito nestes pormenores todos, a amizade é sentida e não pensada. A amizade não dá para contar pelos dedos, por vezes todos os dedos das mãos e dos pés não chegam para contar um único amigo. O truque não é saber o Quanto, mas sim o Quem.

Sobre a amizade haverá muito mais para dizer, mas todas as palavras não serão suficientes para descreve-la, isso apenas pode se dizer com um abraço.