Porque nem só de cartas vive o Homem…VII – As duas mães.

sapeurs9Todos os dias estes dois estranhos cruzavam olhares no autocarro. Os primeiros olhares eram tímidos e fugazes, inocentes e cheios de curiosidade. Um olhar rápido e ele reparou na madeixa loura dela. Num movimento com o cabelo, ela reparou na pequena cicatriz dele abaixo do lábio. Dois estranhos que se conheciam apenas dos olhares. Quando um deles não aparecia, o autocarro por mais cheio que fosse parecia vazio…talvez fossem os seus corações que estranhavam as ausências dos olhares.  Nestes últimos tempos ele já não disfarçava o olhar, olhava e sorria. Ela olhava para o lado, por não conseguir controlar o facto de ficar tão vermelha e fingia não ver o sorriso, mas por dentro ela sorria.

………………….

Hoje perderam ambos o autocarro, ficaram os dois na paragem. Caía uma chuva miudinha mas nenhum dos dois notou. Ele arriscou umas palavras.

– Parece que temos de esperar pelo próximo.

Ela corou e respondeu, – Sim, mas daqui a dez minutos temos outro.

– Acho que não, este é o último autocarro!

– Não pode ser, ainda são seis e meia, temos outro às seis e quarenta. respondeu ela com toda a certeza .

– Talvez o teu relógio tenha parado, já são seis e quarenta e quatro!

– A sério?! Bolas, vou ter de ligar à minha mãe.

Ele sorriu.

– Alô mamã, perdi o autocarro…sim o relógio deve ter parado…não podes? ..Ok vou  ligar-lhe beijinho mamã! Desligou a chamada para logo de seguida fazer outra.

– Olá mãe, perdi o autocarro…sim não me apercebi, podes vir buscar-me?… Ok obrigado, sim estou aqui… ok até já, beijinhos.

– Pronto daqui a 15 minutos a minha mãe vem buscar-me, nós fazemos o mesmo trajecto, se quiseres podemos dar-te boleia.

– Olha e eu aceito, assim evito ligar ao meu pai que de certeza ia demorar pelo menos uma hora a chegar aqui.

– Já agora sou o Ricardo!

-Eu sei! Respondeu ela sorrindo.

– Sabes? Perguntou Ricardo curioso.

– No outro dia o teu amigo chamou-te e eu ouvi.

– Ok, então já tinhas reparado em mim?!

– Já te tinha visto uma ou duas vezes! respondeu-lhe ela a sorrir.

– E tu como te chamas?

– Alice.

– A sério? Adoro esse nome, é o nome da minha avó!

– Alice corou e desta vez não deu para disfarçar.

– Posso fazer-te uma pergunta? Perguntou Ricardo sem certeza.

– Acho que sim, respondeu-lhe Alice.

– Fizeste duas chamadas, em ambas chamaste mãe….

Alice sorriu…

– Não penses que sou homofóbico, ou assim, mas achei curioso.

– Porque haverias de ser homofóbico?

A conversa estava a tornar-se um pouco estranha para Ricardo que não estava a perceber nada.

– Por nada, respondeu Ricardo cada vez mais confuso.

Alice sorriu, já tinha percebido o que Ricardo estava a pensar, mas decidiu deixá-lo um pouco envergonhado, ele ficava adorável assim encavacado.

– Sim tenho duas mães, respondeu Alice. Mas não da forma como pensas. Tenho uma mãe biológica e outra adoptiva.

– Ahhh! Exclamou Ricardo sorrindo.

– Também tenho dois pais, quatro avós e quatro avôs. Fui adoptada quando era pequena porque a minha mãe biológica não tinha condições para me criar, mas nunca perdemos o contacto e a vida deu muitas voltas. É uma dinâmica familiar estranha, mas tudo corre bem, porque existe amor verdadeiro entre todos.

– Bem que história. Olha já eu não tenho mãe, morreu quando eu era pequeno, mas em compensação tenho um pai que vale por 100.

A chuva já tinha parado, nenhum dos dois se tinha apercebido. Os 15 minutos na realidade foram 30 mas pareceu ambos poucos segundos.

– A minha mãe chegou, vamos?!

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