Porque nem só de cartas vive o Homem…XI – Espelho Meu

ced_25071b24462bb68_c25e0977-postOlhou-se no espelho para retocar o bâton. Por vezes não reconhecia a mulher que estava do outro lado do espelho, as rugas não a assustavam mas deixavam-na apreensiva. Filipa é uma mulher bela, é vistosa e sabe disso, mas a cada dia que passa precisa de mais tempo em frente ao espelho para ser, ou tentar ser, a mulher que aparenta.
Saber envelhecer é uma arte, pensou para si mesma.

A pele já não tinha a firmeza de antes, o cabelo, loiro e bem tratado, precisava de pintura com cada vezes menos espaçamento de tempo. As pernas estavam firmes, ‘de fazer inveja a muita menina de 20 anos’ dizia-lhe amiúde o marido. A ideia de envelhecer não a assustava, mas deixava-a pensativa, e pensativa ficou ao ver-se no espelho naquele inicio de noite.
– Ah, estas aqui! Andava à tua procura, disse-lhe Ricardo ao ouvido.
– Achas que sou bonita?
– Claro que sim! Que pergunta tão tola, és a mais bonita mulher que está neste planeta, quiçá do universo!
– Não sejas parvo, não achas que estou a ficar velha?
– Acho, mas é normal Filipa, esse é o rumo do tempo, passa e envelhecemos. Mas deixa-me que te diga, se te visse na rua e não fosse teu marido teria muita dificuldade em não olhar para ti, és uma mulher tesuda, bonita e o teu cheiro…deixa-me completamente louco.
Filipa sorriu. Ricardo sabia sempre deixá-la bem disposta, mesmo que por vezes exagerasse um pouco.
-Estou pronta, vamos para dentro?
– Espera só um pouco, diz-lhe Ricardo ao ouvido enquanto a abraça por detrás.
– Porquê?
– Quero ficar um pouco agarrado a este pedaço de mau caminho que é a minha mulher. Se morresse hoje era esta a imagem que queria ter na minha mente. Mesmo quando fores velhinha, andarei atrás de ti de bengala a afugentar os velhos babões cheios de viagra. Foi o teu corpo que me fez olhar para ti na primeira vez, mas é a tua essência que me faz continuar contigo todos estes anos. Não te trocava por nada, ficaria sempre a perder, e a prova está aqui neste espelho.

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Porque nem só de cartas vive o Homem…X – O Segredo de Ferreirinha

ced_25071b24462bb68_c25e0977-post” Os pássaros do Sul continuam a ser um bando de asas soltas?”

Rita trabalhava há 4 dias nesta ala quando encontrou na bata este estranho bilhete. Comentou com uma colega que soltou um longo sorriso:
– É um novo recorde. Comigo foram duas semanas.
– Mas o que é isto, perguntou Rita sem perceber.
– É uma mensagem do nosso espião, quer saber se tu fazes parte da resistência…
……………………………………………………………………………………………………… António Ferreira estava institucionalizado há 35 dos seus 56 anos. Sem família para o amparar foi acolhido nesta instituição que se tornou a sua casa. Quando aqui chegou era um maluquinho, mas actualmente o termo correto é ‘sofre Patologia’, e a de ‘Ferreirinha’ (como é conhecido pelos funcionários) combina uma psicose de cenários de guerra e espiões, com uma fixação grave pelas músicas da Mafalda Veiga. Na verdade Ferreirinha é um paz de alma, ajuda as funcionárias sempre que é preciso e é muito amável, educado e muito atento…embora tudo faça parte do seu disfarce enquanto infiltrado.
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– Então e ele não é perigoso?
– Quem o Ferreirinha?
– Sim, afinal estamos no meio de tantos tontinhos.
– Rita, espero que não te voltes a referir a estes utentes dessa forma! Não estamos no meio de tontinhos, estamos no meio de pessoas que vêm o mundo de uma forma diferente da nossa, não é assim tão linear. Ali a Maria resolve uma equação matemática como quem pisca os olhos, o Ricardo sabe dizer-te a morada completa se lhe disseres um número de telefone fixo. Não são maluquinhos, loucos ou xalupas, são diferentes de ti, mas eu também sou diferente de ti e não me consideram maluca pois não?
– Sim tens razão, por vezes é difícil recordar isso quando estamos aqui dentro.
– Vou contar-te um segredo, eu por vezes eu escrevo uns bilhetinhos com mensagens para o Ferreirinha.
– A sério?! Não achas que isso pode reforçar as suas patologias?
– Reforçar? Ele está aqui institucionalizado há anos, e é dos únicos que ainda é sociável, com quem podes ter uma conversa, que te ajuda se lhe pedires. Que sabe o teu nome, que se lembra do teu aniversário. Às vezes acho que o Ferreirinha tem mais saúde mental do muitos de nós!
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Rita pensou no que Ana lhe dissera uns dias antes e depois de se aconselhar com ela, decidiu escrever-lhe um bilhete de resposta:

‘Se esta mensagem encriptada chegar ao destino certo informo que:

Geme o restolho, preso de saudade
esquecido, enlouquecido, dominado
escondido entre as sombras do montado
sem forças e sem cor e sem vontade’

PS: O seu trabalho de infiltrado está a ser muito útil, estamos a considerá-lo para uma promoção, mas não comente nem se manifeste com ninguém – ainda é SEGREDO!

Porque nem só de cartas vive o Homem…IX – O vídeo do Youtube

sapeurs9Alberto não era pessoa de grandes riscos. Gostava de ter as coisas certas nos lugares certos. Aquele encontro com Diana foi como um tornado na sua vida. Naquela noite foi a uma festa e bebeu, o que não era habitual e divertiu-se (o que também não era habitual) e por momentos sentiu-se livre. Já meio alegre cirandou pelo jardim da casa e viu um grupo de pessoas, sentados numa mesa à beira da piscina e aproximou-se.

– Queres uma passa? Pergunta-lhe uma rapariga loira e muito bonita.
– Epá, pode ser! respondeu Alberto. É o quê?
– Erva, disse a moça engolindo o fumo e passado-lhe a erva.
Alberto não fumava cigarros, charutos ou ganzas, mas não estava a querer dar parte de fraco.
– Não tens de fumar se não quiseres, disse-lhe a rapariga percebendo a sua hesitação.
– Pois…se calhar é melhor não fumar!
– Mas podes ficar aqui, sou a Diana.
– Sou o Alberto.

– Deves ser a única pessoa de fato e gravata nesta festa, disse-lhe sorrindo.

– Pois, sabes que vim directamente do trabalho, ainda nem jantei!

– E tens estado a beber?

– Sim…respondeu Alberto fazendo uma cara de miúdo traquina.

Nessa noite Alberto não fumou a sua primeira ganza de erva, mas conheceu uma pessoa muito interessante e bebeu…mais do que a conta.

Eram 17:42 quando o telefone tocou. Alberto não conhecia o número, mas atendeu.
– Estou sim?
– Não me disseste que eras uma estrela, diz uma voz feminina do outro lado.
– Uma estrela? Mas quem fala?
– Sou eu a Diana, deste-me o teu número antes de ires embora, na sexta na Casa da Joana.
– Ahhh olá! Pois bebi mais do que devia é verdade! Nem me lembro de como cheguei a casa.
– E não me disseste que eras uma estrela! Tens um video no youtube…no metro, é super divertido, estava toda a gente a rir, é o máximo!
– O quê? Um vídeo meu? Tás a gozar comigo só pode!
– Não estou nada, vou enviar-te o link…
O vídeo, de menos de um minuto, mostrava Alberto no metro completamente bêbado, dançava e dizia “Diana i love you”.
– A sério…não acredito nisto. Lamuria-se Alberto.
– Olha eu acho fixe! Já tens 25 mil visualizações em dois dias e a crescer. Olha, e quem é a tal Diana?
– Epá, olha só te posso pedir desculpa, nem eu sei explicar o que me deu, eu por norma não sou assim!
– A sério? Olha e eu a pensar mesmo que tu eras do tipo de andar sempre completamente bêbado e a aparecer em vídeos do youtube!
– Vá lá não gozes.
– Estou só a brincar, queres ir beber um copo um dia destes?
– Claro…claro que sim, quando quiseres.