Porque nem só de cartas vive o Homem…XV – Margarida a Casamenteira

1Margarida não tinha muito jeito para falar inglês, nunca se ajeitou a fazer bordados, ainda tentou aprender a tocar guitarra mas sem qualquer resultado. Mas havia uma coisa que a Margarida fazia bem como ninguém – Juntar pessoas!

Aos 7 anos juntou a Carla e o Alfredo no recreio da escola, hoje estão casados e têm 4 filhos, Margarida é a Madrinha da mais velha. Aos 12 juntou o Pedro e a Filipa e resultou bem durante algum tempo, até aparecer o Ricardo, não a Filipa não se apaixonou pelo Ricardo, mas já o Pedro… Mas nada que abalasse a veia casamenteira de Margarida, aos 17 conheceu o seu Zé, agarrou-o por um braço e nunca mais se largaram, aos 21 enquanto a prima Joana passava as férias em sua casa, juntou-a ao seu cunhado Hugo, afinal nem Joana nem Hugo queria servir de vela para Margarida e Zé.

Quando tinha 39 anos juntos Rosália e Fernando, duas almas sozinhas, residentes no lar onde Margarida era assistente. O facto de Rosália ter uma bacia deslocada e Fernando ser surdo que nem uma porta, a demoveu de tornar a vida daqueles dois idosos mais colorida.

Mais recentemente Margarida juntou André e Liliana. Margarida além de trabalhar durante as manhãs num lar, fazia também a partir das 19h umas limpezas numa empresa. Era um edifício grande, com muito chão para limpar e mesas para arrumar. Embora fossem ao fim do dia, já depois do expediente da maioria dos funcionários, era comum encontrarem alguns que ficavam até mais tarde. Por norma Margarida começava pela sala das vendas, enquanto a sua colega arrumava a sala de reuniões. Tinham ordem para perguntar primeiro se podiam começar a limpar, sempre que se encontrasse algum trabalhador ainda no seu posto. André era sempre o último a sair, gostava de ficar até mais tarde, depois de todos saírem era o momento em que era mais produto, o silêncio permitia-lhe organizar o trabalho para o dia seguinte.

– Boa tarde André ainda por aqui?

– Já estou quase a sair, falta-me só organizar aqui uns papeis, mas se quiser pode começar a limpar que não incomoda.

– É sempre o último a sair, não tem vontade de ir para casa, descansar para junto da família, da namorada…

– É igual Margarida, a minha família está toda no norte, à minha espera em casa nem cão nem gato…e muito menos namorada…pelo menos aproveito para trabalhar.

– Aproveite a vida menino…olhe que o tempo que passa a trabalhar não lhe trará felicidade. Eu se não fosse o facto de ter a minha Andreia na universidade não andava aqui a limpar depois de um dia de trabalho.

– É isso que os pais fazem Margarida, sacrificam-se pelos filhos.

– Mas vale a pena André, vale muito a pena para ver aquela menina chegar longe. Não é por ser minha filha, mas o raia da miúda é mesmo inteligente e boa aluna. Por ela trabalharia dia e noite, tenho muita sorte em ter uma menina tão boa.

– A sua filha tem muita sorte em ter uma mãe como a senhora!

Margarida gostava de falar com André, porque ao contrário da maioria dos outros trabalhadores que estavam na empresa àquela hora, ele não a tratava como se fosse um ser invisível.

Depois de umas semana sem ir fazer limpeza devido a uma queda que havia dado, Margarida voltou à sua rotina e ao seu segundo trabalho. Como habitualmente Margarida começa a limpeza pela sala das vendas, desta vez não está só o André na sala, mas também uma rapariga muito bonita. Devia ser nova, aquela mesa estava desocupada fazia tempos.

– Posso começar a fazer a limpeza ou preferem que espere?

– Olá Margarida, então e essas férias? Foram boas?

– Olá André, não foram férias, antes fosse. Dei uma queda e olha…

– Mas está tudo bem?

– Sim já está tudo bom, disse Margarida sorrindo.

– Posso começar a limpar?

– Liliana importas-te que a Margarida comece a limpeza? perguntou Ricardo.

Margarida reparou no olhar brilhante que André tinha quando falou para a rapariga.

– Claro que sim, estou quase a acabar! Respondeu a moça.

Qual santa Antónia casamenteira, Margarida começou a engendrar um plano para juntar estes dois. O primeiro passo era saber se a rapariga tinha namorado, não tinha aliança e era demasiado nova para estar casada. Confirmou que vivia em casa dos pais quando, ao ir despejar o lixo, ouviu uma chamada de Liliana para que o pai a fosse buscar.

– Então Liliana à espera de boleia?

– Sim, estou sem carro e o meu pai ficou de me vir buscar, mas hoje parece que vou ter de esperar bastante, está preso no transito… um acidente de um camião no meio da estrada.

– O André deve estar a sair, se lhe pedir ele dá-lhe uma boleia com toda a certeza.

Liliana ficou vermelha, a sua pele branca encheu-se de sangue.

– Não é preciso, não faz mal eu espero ou chamo um táxi ou assim.

André ia a sair naquele momento, e Margarida aproveitou para atalhar a foice.

– André olha que a menina está sem boleia hoje, não vai ficar aqui sozinha até o pai chegar. Nós só saímos daqui a uma hora e meia e a menina não pode ficar aqui sozinha. Podes dar-lhe uma boleia? Disse Maria piscando subtilmente o olho.

– Err.. Claro que sim disse André meio atrapalhado, mas percebendo a dica de Margarida.

– Não é preciso, não precisas de te incomodar…a sério, respondeu Liliana.

– Claro que é preciso! disse Margarida, daquela forma que só uma mãe sabe dizer, Então tem algum sentido ficar aqui este tempo todo à espera quando pode ter a boleia de uma colega de trabalho. E olhe que o André é bem jeitosinho, tivesse eu menos 20 anos e não fosse o meu Zé o amor da minha vida e não sei não…

André estava cada vez mais atrapalhado, mas Liliana percebeu que era melhor do que estar à espera.

– Olha se não for mesmo muito incomodo eu aceito a boleia.

– Claro que não é incomodo, onde moras?

– Na quinta de Santo António, ao pé do Aki, respondeu Liliana.

– A sério? Eu também moro aí perto, moro por cima da pastelaria pérola.

– Estão a ver até são vizinhos e tudo, é o destino meus meninos é o destino.

Ao ver o carro arrancar do estacionamento, Margarida sentia que tinha feito a sua magia novamente. André e Liliana ainda não o sabiam, mas acabavam de ser juntos pelo destino, e pela ajuda preciosa de Margarida.

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Porque nem só de cartas vive o Homem…XIV – A cabeça nas nuvens

1– Rita, ouviste o que te disse?

– O quê? Estava distraída, não percebi….

– É disso mesmo que eu falo! Nunca ouves o que te digo, parece que não queres saber de nada, às vezes até parece que não queres saber de mim!

– Não sejas tolo é claro que quero saber de ti, mas sabes como eu facilmente me distraio!

– Dizer que facilmente te distrais é ser muito benevolente, tu vês um passarinho a voar e esqueceste do que estavas a fazer…

– O quê, não estava a ouvir…

– Tás a ver, lá estás tu outra vez!

– Estava só a brincar, estava a ouvir-te perfeitamente. Sou assim distraída e depois?

– Tens sempre a cabeça nas nuvens!

– Mas pelo menos é uma nuvem cor de rosa.

Porque nem só de cartas vive o Homem…XIII – Zé Cambuta

1José já não sabe ser criança. Da fisga apontada aos pardais dispara pequenas pedras, não são para matar, apenas para passar o tempo. Na plantação de açúcar todos o tratam por Zé Cambuta, devido à baixa estatura e idade. Dia após dia ajuda na apanha da cana, ainda não tem idade para cortar, por isso faz apenas pequenos molhos que transporta à cabeça para o tractor. José sonha em ser advogado, para um dia poder defender todos os que sofrem de injustiças.
– Quero ser advogado na América!
– Mas tu sabes onde é a América?
– Sei mais ou menos que fica do outro lado do mar! A professora disse que é uma terra onde todos os que querem podem ser alguém!
– Isso não sei filho, mas seja que na América ou aqui na plantação, estás destinado a grandes feitos!
– Mamã o destino é aquilo que nós queremos fazer da nossa vida…
– Então vamos apanhar mais cana para te ajudar nesse sonho!
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Zé nunca chegou a ser advogado, tornou-se capataz do conjunto de plantações da sua zona! O seu sonho não desapareceu, apenas se transformou! Zé é capataz mas não gosta de mandar, criou a primeira cooperativa de trabalhadores e melhorou significativamente as condições de todos os que trabalham nas plantações. De um velho barracão criou uma pequena escola, para que os filhos dos trabalhadores pudessem ansiar a mais do que trabalhar numa plantação de cana. Maria é a professora, é também a mulher que todos os dias aquece o coração de Zé Cambuta.
– Não tens pena de nunca ter seguido o teu sonho Zé?
– Mas eu segui o meu sonho, só não faço a advocacia com os livros, mas sim com o coração. Ser advogado não era um sonho, era apenas o meio para poder realizar o meu sonho – Ajudar os outros.
– Gosto de ti Zé! Gostamos todos, os miúdos fizeram este pequeno texto para ti!

” Nós gostamos do Zé Cambuta porque ele é nosso amigo. Criou a escola para nos dar educação e nos ajudar a ser alguém. Zé é só Cambuta no nome, porque no coração é muito grande. Gostamos muito de ti Zé”

Porque nem só de cartas vive o Homem…XII – A receita do amor

1Joana sonhava com um amor, não precisava de ser um grande amor, um daqueles que roubam a lua e as estrelas! Bastava que fosse um amor sincero, um amor remediado mas honrado! Ricardo só queria amar, queria poder passar os dias ao lado de alguém que o fizesse sentir bem! Alguém que lhe desse vontade de dizer disparates, que provocasse comichões na barriga quando visse o número dela no telefone.
Quando os dias pareciam todos iguais, a seguirem-se uns atrás dos outros, eis que o inesperado acontece. Foi um choque frontal e café espalhado por todo o lado, no chão, nas mãos, nas roupas de Joana e Ricardo e na D. Rosa que foi apanhada no meio deste acidente. Pararam um segundo a olhar um para o outro, mas esse segundo pareceu a ambos uma eternidade… Ricardo avançou:
– Desculpa não foi por mal, ia distraído e não reparei…
– Não tem problema, não me magoei e tu pelos vistos também não, é como diz a minha avô…
– O que não tem remédio remediado está! – disseram os dois ao mesmo tempo…
Rosa ainda ia reclamar pelo facto de lhe terem entornado o café em cima da saia, uma saia de veludo quase nova, comprada em 1998 na modista da rua da Prata, mas apercebeu-se que acabara de assistir a um choque de amor, e isso acalmou-a. Pensou no seu falecido Alberto e de como era garboso quando era mais novo.
O amor tem destas coisas, por vezes surge do meio da confusão, e com uma receita pouco comum:
2x 60cts dos cafés entornados
12 euros de lavandaria para as calças de Ricardo
3 Lavagens na máquina dos ténis brancos de Joana
1 Saia de veludo irremediavelmente estragada
Mas o troco compensou…um amor pequenino é verdade, mas com espaço para crescer.