Porque nem só de cartas vive o Homem…XVI – Promessas que a guerra quebrou

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Avó quem é este senhor aqui na foto? Esta és tu, mas este não é o avô!
– Qual foto querida?
– Esta!
Anabela pegou na foto, e durante micro segundos, que lhe pareceram horas, ficou imóvel com os olhos fixos.
– Avó…quem é esse na foto contigo?
– Não me lembro minha querida…mas onde é que foste encontrar esta fotografia?
– Estava numa caixa no sótão, estava a ver os teus vestidos antigos e encontrei-a. Mas não mudes a conversa, quem é? É bem giro, mas não me admira tu eras uma brasa, fiu fiu.
– Era…? Eu sou uma brasa, mas agora estou um pouco menos quente.
– Desculpa avó, faço um mea culpa -És uma brasa! Mas ainda não me disseste quem é!
-Ai filha tu és uma chata…era um amigo pronto!
– Um amigo…pois tá bem D. Anabela, com estes sorrisos eram mais do que amigos, conta lá vá lá. A foto não diz mais nada a não ser ‘ Prometo-te que volto’. Volta de onde, e porquê a promessa?
– Pronto…sabes filha, muitos anos anos de eu conhecer o teu avô namorava com este rapaz. Ele era belo, simpático e muito charmoso. Frederico era o nome dele. Estávamos completamente apaixonados e ficámos noivos em segredo, o teu bisavô dizia que ele era um malandro tudo porque andava de mota e fumava. Combinámos casar em segredo, mas entretanto estalou a guerra e ele foi chamado… tirámos esta foto dois dias antes de ele partir para a guerra. É a única recordação que me resta.
Os olhos de Anabela estavam mareados em lágrimas. – Anos mais tarde conheci o teu avô casamos tivemos filhos lindos e netos ainda mais lindos, mas no meu coração ficou sempre este vazio.
– Desculpa avó não sabia…
– Eu sei filha. Não pensei que não amei o teu avô, muito pelo contrário, amei-o muito, mas ficou aqui algo não resolvido. Todos os anos quando vou à campa do teu avô passo na campa do Frederico, deixo uma flores e fico ali um pouco a pensar, dá-me alguma paz.
– O avô alguma vez soube?
– Claro que sabia, e não se importava! Foi ele que me incentivou a visitar a campa do Frederico pelo menos uma vez por ano, quando o avô morreu passei a visitar os dois únicos homens da minha vida.
– Da próxima vez vou contigo avó.
– Obrigado minha querida, terei muito gosto em que venhas.

Cartas de uma tarde de verão II – A resposta

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Lisboa 1939

Querido Alberto

Fico muito agradada com o retrato que me enviaste. Foi um verão excepcional, mas como te disse na altura nao sou mulher de um homem só. A minha liberdade só será quebrada quando encontrar o amor da minha vida… O que procuras numa mulher certamente nao serei eu a dar-te. Se quiseres um conselho de amiga mantém a tua mulher por perto, talvez ela te possa dar o que eu nao posso. Guarda as tuas promessas para quem as queira.
Paris nao me diz nada, asim como tu também não. Nao tens o que procuro num homem, é certo que tens dinheiro, bons modos e um encanto muito agradável, mas falta-te a liberdade de espirito. Peço-te que nao guardes rancor.
Envio-te um retrato meu para que me recordes com amizade. Prometo nao te esquecer, mas não me peças para te amar…esse é um privilégio que nao te posso conceder.

Um beijo de despedida

Francisca

Cartas de uma tarde de verão

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Foz do Arelho 1939

Minha querida Francisca, espero que te encontres bem.

Envio-te este retrato (tirado pelo meu primo Ricardo) do nosso último dia de férias. Recordo-me perfeitamente (como se fosse agora) das nossas palavras, eu prometi-te que te faria a mulher mais feliz do mundo e tu respondeste-me (e bem) para guardar essas promessas para a minha mulher! Ainda não estava refeito da tua resposta quando me beijaste apaixonadamente! Ainda sinto aquele beijo, o sabor dos teus lábios misturados com água, simultâneamente salgado e doce.

Devo dizer que nunca conheci uma mulher como tu, bela, independente mas acima de tudo com uma inteligência capaz de envergonhar qualquer homem. Bem me dizia o Ricardo: Aquela mulher é um furação, por onde passa deixa tudo virado do avesso, e assim ficou o meu coração, a minha mente e toda a minha vida. Pensei que estava enfermo, visitei médicos e curandeiros…mas no fim resignei-me, o meu mal era outro!
Estou a pensar ir até Paris passar uma temporada, gostaria que viesses comigo. Antes que me perguntes, a Luísa não vem. Bem sabes que uma separação acabaria com a sua reputação, mas arranjámos um certo entendimento, ela decidiu ir para Óbidos e eu ficarei em Lisboa, com os meus negócios. Desta vez estou pronto para cumprir a minha promessa…assim tu me deixes.

Aguardo, com o coração nas mãos, por uma resposta tua. Bem sei que tu és um canário de rua e não de gaiola, uma ave canora que só é feliz livre, eu apenas quero ser parte dessa felicidade.

Com amor, volúpia e saudades

do sempre teu Alberto

Carta para o amor – Amar (também) é deixar partir

0_4Finalmente encontrei-o. Após tanto tempo de procura, noites perdidas e dias mal passados, consegui de uma vez por todas apanhá-lo. De forma alguma o tencionava deixar partir, agora era meu, finalmente tinha encontrado o AMOR. Foi algo procurado por tanto tempo, foi aplicada toda a minha vontade, toda a minha dedicação e bastante esforço. Não o podia perder, nem pensar nisso, nunca o deixaria partir. Tomei então a decisão mais acertada (pensava eu), disse para mim mesmo “-Vou colocá-lo num frasco, assim poderá estar sempre junto a mim!”

Tirei a inspiração de uma música, falava sobre como guardar o AMOR num frasco, fechá-lo bem para não fugir. Quando o coloquei no frasco, ele era viçoso e muito radiante. Todos os dias olhava o meu AMOR dentro do frasco, e ele enchia-me o coração. Não sei o que era, talvez uma aura mágica à sua volta, que me entrava pelos poros da pele, deixando-me quase em êxtase. Os dias passavam e o meu AMOR tornava-se cada vez menos radiante, cada vez menos intenso…não percebia o porquê…mas o meu coração já não se enchia tão facilmente. Pensei e chorei, pensei novamente e voltei novamente a chorar. A muito custo decidi abrir o frasco. Doía-me o coração, estava apertado e a angústia invadia-me o peito. Havia chegado a hora. Não quero, não quero… Teria de deixar partir o AMOR. No exacto momento em que abri o frasco, o meu coração subitamente encheu-se de AMOR, um AMOR mais forte, mais radiante, puro e brilhante. Todo o meu corpo vibrou, eu sorria enquanto o via partir, transformado em pequenas pétalas de rosas. Antes de o deixar de ver, o vento acariciou-me a parte de trás do pescoço, e sussurrou-me baixinho aos ouvidos…”Amar (também) é deixar partir”

(este texto já é antigo e já o publiquei em mais do que um lugar, mas gosto sempre de o revisitar)

Carta para o Lar

5Um dia alguém disse-me que Lar é o lugar onde temos o nosso coração. Encontro-me  em casa agora, mesmo que esteja tão longe dos que mais me querem bem.

Um dia alguém disse-me que Lar é onde somos mais amados. Encontro-me em casa então, mesmo que longe da minha língua, da minha comida da minha herança.

Um dia alguém disse-me que Lar é o lugar onde podemos ser nós mesmos. Encontro-me em casa hoje, mesmo que a minha mente por vezes me peça para partir.

Levo a minha casa comigo, carrego no meu coração tudo aquilo que não cabe na mochila, tudo o que não é acessório, tudo aquilo que realmente importa. Parto e sigo sem rumo, mas estranhamente volto sempre ao mesmo local.

Passei por muitas casas, mas apenas existe que chamar de Lar.

Lar é onde temos o coração, e o meu está em ti.


Carta que espera resposta

5Decidiste partir. Poderias ser apenas mais um dos milhares de  jovens, que sabem que  o seu futuro passará por outro país que não este, por outras pessoas que não estas, por outras línguas que não esta.

Partiste, e eu não tive sequer a coragem de te dizer o que sinto por ti. Não sei se estás a ler esta carta no avião, espero que sim, espero que tenhas acedido ao meu pedido de apenas a abrires em pleno voo. Um carinho especial por ti, isto é o que me dizes sempre… Um carinho especial, era esta a expressão que usavas quando te referias a nós os dois.

Eu sei que tu sabes, aliás ambos sabemos o que sinto por ti, e não se enquadra, apenas, no “Carinho especial”. O que nenhum de nós sabe, é o que tu realmente sentes por mim.  Não sei como te explicar, mas de facto para mim nunca foi fácil decifrar-te! Gostaria de usar uma frase menos pirosa, mas a verdade é que és como a Lua, parte de ti esteve sempre escondida, inacessível para mim.

Partiste, mas deixas aqui muitas coisas, amigos, família, e uma enorme dúvida na minha cabeça, e uma pergunta por responder no meu coração.

Esta carta espera uma resposta… eu espero uma resposta

Carta para a vizinha do 3º direito

Querida Vizinha do 3º direito,1 no outro dia esperei por ti no hall de entrada do prédio. Apercebi-me que estavas a chegar e convenientemente fiquei a ater a sapatilha até tu chegares. Não sei se sabes, mas fui eu que te deixei o bilhete no teu carro na semana passada. Não quero ser mal interpretado, mas custa-me que estejas sempre com um ar triste, tu que és tão bonita.

No outro dia vi-te no elevador, disse-te bom dia e tu baixaste os olhos. Queria perguntar-te porque estás sempre triste? Que dor é essa que carregas em ti que não te permite sorrir para mim. Tenho receio de estar a fazer uma confusão, e na verdade tu apenas não me queiras dar confiança.

Ontem ajudei-te com as compras e sei que só aceitaste porque estava a chover, de outra forma não acredito que aceitasses. Gostava de conversar contigo e perguntar-te coisas, perder-me a ouvir-te falar, gostava de saber o que fazes, de onde és, para onde vais. Gostava de te levar a comer um gelado, ou simplesmente poder sentar-me contigo em frente ao rio. Queria saber mais sobre ti, fascinas-me, intrigas-me deixas-me perdido. Onde trabalhas, quantos irmãos tens? És alérgica a alguma coisa?

Enquanto escrevo esta carta reparo pela janela que estás a chegar, já conheço o barulho do teu carro. Deixei-te um cd debaixo da porta, espero que gostes.

Um dia talvez te entregue esta carta, mas antes vou ter de ver um sorriso teu… e saber o teu nome

Espero que gostes

Birdy – Skinny Love

The Cinematic Orchestra – To Build a Home

Sigur Ros – Olsen Olsen

Norton – CoastLine

José Gonzalez – Heartbeats

 

Carta do Silêncio

24 Foi sempre nos silêncios que mais dissemos um ao outro. Foram longas as conversas que tivemos sem pronunciar-mos uma única palavra. Foi esta estranha capacidade de nos entendermos sem dizer uma simples palavra, que me fez perceber o quanto te amo.

O silencio foi sempre nosso cúmplice, era apenas nosso. Nunca foi o olhar, nunca foi o toque, mas sim a ausência de palavras que nos completava. Foi no silêncio que mais trocámos um com o outro. Mas nem todos os silêncios foram positivos. Muitos foram avassaladores, foram tristes e amargos, mas na sua maioria eram doce e gritavam alto no vácuo do som.

Hoje, não te tenho mais perto de mim. Silenciou-se  o meu silêncio, o nosso silêncio. Hoje escuto as palavras que dirigem,  não as entendo. As palavras que digo, simplesmente não me preenchem pois são vaziam de tudo, é um esforço estas pequenas junções de letras tão cheias de nada.

Disse-te amo-te muitas vezes sem abrir a boca, nunca foi preciso! Tu entendias que este silêncio era necessário, era para  mim a única forma de levar em frente todo aquele turbilhão de emoções. Talvez tenha sido fraco, talvez não tenha percebido que emoções tão fortes não podem sobreviver na ausência.

No entanto não me arrependo dos silêncios. De todas as vezes que ouvi a palavra amo-te, nenhuma foi tão forte como as ditas pelo teu silêncio. Hoje os silêncios parecem-me forçados. Tu partiste, nesse dia em desespero pedi-te que não fosses, talvez tenha sido exagerado nos meus silêncios, talvez não tenha percebido que precisasses de algo mais. Na verdade as palavras podem magoar, mas também podem acalentar. Não tive a capacidade de perceber, que por vezes seria necessário. Nem sempre os silêncios foram entendidos da mesma maneira.

Amei-te no silêncio, perdi-te no silêncio. Hoje os meus dias são preenchidos de palavras, quase todas ditas sem nexo, são  diálogos que não me preenchem. Sinto a tua falta. Falta-me o teu silêncio, simplesmente faltas-me tu. Se pudesse voltar atrás talvez não repetisse todos estes silêncios, talvez  te tivesse dito as palavras que poderiam ter-nos aguentado.

Foi nos silêncios que te disse amo-te, que te beijei, que te perdi.

Se o silêncio uniu-nos, é justo que tivesse sido ele a separar-nos. Talvez um dia te encontre novamente, talvez um dia voltemos a partilhar a ausência de palavras, será a única forma de te dizer tudo aquilo que através das palavras nunca consegui.

Obrigado por todos os silêncios que me proporcionaste.

“Words like violence
Break the silence
Come crashing in
Into my little world
Painful to me
Pierce right through me”