Porque nem só de cartas vive o Homem…XII – A receita do amor

1Joana sonhava com um amor, não precisava de ser um grande amor, um daqueles que roubam a lua e as estrelas! Bastava que fosse um amor sincero, um amor remediado mas honrado! Ricardo só queria amar, queria poder passar os dias ao lado de alguém que o fizesse sentir bem! Alguém que lhe desse vontade de dizer disparates, que provocasse comichões na barriga quando visse o número dela no telefone.
Quando os dias pareciam todos iguais, a seguirem-se uns atrás dos outros, eis que o inesperado acontece. Foi um choque frontal e café espalhado por todo o lado, no chão, nas mãos, nas roupas de Joana e Ricardo e na D. Rosa que foi apanhada no meio deste acidente. Pararam um segundo a olhar um para o outro, mas esse segundo pareceu a ambos uma eternidade… Ricardo avançou:
– Desculpa não foi por mal, ia distraído e não reparei…
– Não tem problema, não me magoei e tu pelos vistos também não, é como diz a minha avô…
– O que não tem remédio remediado está! – disseram os dois ao mesmo tempo…
Rosa ainda ia reclamar pelo facto de lhe terem entornado o café em cima da saia, uma saia de veludo quase nova, comprada em 1998 na modista da rua da Prata, mas apercebeu-se que acabara de assistir a um choque de amor, e isso acalmou-a. Pensou no seu falecido Alberto e de como era garboso quando era mais novo.
O amor tem destas coisas, por vezes surge do meio da confusão, e com uma receita pouco comum:
2x 60cts dos cafés entornados
12 euros de lavandaria para as calças de Ricardo
3 Lavagens na máquina dos ténis brancos de Joana
1 Saia de veludo irremediavelmente estragada
Mas o troco compensou…um amor pequenino é verdade, mas com espaço para crescer.

Carta para o amor – Amar (também) é deixar partir

0_4Finalmente encontrei-o. Após tanto tempo de procura, noites perdidas e dias mal passados, consegui de uma vez por todas apanhá-lo. De forma alguma o tencionava deixar partir, agora era meu, finalmente tinha encontrado o AMOR. Foi algo procurado por tanto tempo, foi aplicada toda a minha vontade, toda a minha dedicação e bastante esforço. Não o podia perder, nem pensar nisso, nunca o deixaria partir. Tomei então a decisão mais acertada (pensava eu), disse para mim mesmo “-Vou colocá-lo num frasco, assim poderá estar sempre junto a mim!”

Tirei a inspiração de uma música, falava sobre como guardar o AMOR num frasco, fechá-lo bem para não fugir. Quando o coloquei no frasco, ele era viçoso e muito radiante. Todos os dias olhava o meu AMOR dentro do frasco, e ele enchia-me o coração. Não sei o que era, talvez uma aura mágica à sua volta, que me entrava pelos poros da pele, deixando-me quase em êxtase. Os dias passavam e o meu AMOR tornava-se cada vez menos radiante, cada vez menos intenso…não percebia o porquê…mas o meu coração já não se enchia tão facilmente. Pensei e chorei, pensei novamente e voltei novamente a chorar. A muito custo decidi abrir o frasco. Doía-me o coração, estava apertado e a angústia invadia-me o peito. Havia chegado a hora. Não quero, não quero… Teria de deixar partir o AMOR. No exacto momento em que abri o frasco, o meu coração subitamente encheu-se de AMOR, um AMOR mais forte, mais radiante, puro e brilhante. Todo o meu corpo vibrou, eu sorria enquanto o via partir, transformado em pequenas pétalas de rosas. Antes de o deixar de ver, o vento acariciou-me a parte de trás do pescoço, e sussurrou-me baixinho aos ouvidos…”Amar (também) é deixar partir”

(este texto já é antigo e já o publiquei em mais do que um lugar, mas gosto sempre de o revisitar)

Carta para um pai ausente

1Pai, uma palavra sempre pareceu estranha ao sair da minha boca. Não posso dizer que tenhas estado muito presente. Na verdade a ausência fez de nós dois estranhos, mas dois estranhos que sempre gostaram um do outro. Tenho pena que não me tenhas falado mais vezes sobre o que sentias, mas tenho mais pena ainda de nunca to ter perguntado.

Arrependo-me dos anos que passei zangado contigo, dos anos em que quase não nos vimos a não ser nos dias de protocolo. Na verdade nunca te esqueceste do meu aniversário, todos os anos me ligavas nem que fosse para falar durante 2 minutos. Muitas vezes quase não recebias palavras de volta, eram pequenos monólogos que ambos nos resignávamos a aceitar. Tenho pena de não me ter apercebido que estavas a envelhecer, que a tua saúde já não era a melhor, que as tuas mágoas se atenuaram um pouco e que talvez precisasses de mim.

Um dia, sem aviso prévio foste embora. Ficou um vazio mim. De repente já não te podia pedir perdão, já não te podia perguntar o que tinha sido a tua vida, de onde tinhas vindo quais foram os teus sonhos, as tuas paixões as tuas raivas. Sei que tinhas orgulho em mim, nunca mo disseste, mas eu sei que tinhas. Fui obrigado a remexer na tua vida, tive de a catalogar, de organizar, colocá-la em caixas . Aos poucos fui-me apercebendo de quem eras, li sem despudor as tuas cartas guardadas, as fotografias de que tinhas na tua carteira, uma minha uma do avô e outra do Jorge. Via as tuas 560 fotografias a preto e branco, recordações de um António que nunca conheci, esse António já tinha partido à muito quando eu nasci. Impressionou-me o facto de nas fotografias mais recentes quase não sorrires. O teu sorriso desapareceu com os anos. Fruto de uma guerra agressiva, fruto das perdas de duas mulheres, frutos de outras tantas perdas intensas que foste tendo ao longo da tua vida.

Hoje fui visitar-te, levei-te flores frescas, na verdade foi a Andreia que as escolheu. Sentei-me um pouco e conversei contigo. Mais uma vez falei-te da pequena partida que te preguei, dei-te um funeral cristão, a ti um ateu convicto. Sei que não levaste a mal, na verdade até achaste graça, imagino que tenhas ficado inicialmente danado, mas foi a minha escolha. Contei-te como limpei a Hermes Baby, e de como esta semana me ligaram para falar sobre ti. Ia-me esquecendo, este ano não paguei as cotas dos antigos combatentes, já não aceitam eu não posso ser sócio, e tu já não estás por cá.

Ainda não foi hoje que tive a coragem de te dizer, que sinto a tua falta! Na verdade senti a tua falta toda a vida. Arrependo todos os dias de nunca te ter perdoado a ausência destes anos todos. Odeio quando a vida se torna um cliché, mas desta vez foi verdade, só senti verdadeiramente a falta depois da tua partida. Talvez um dia te diga tudo o que ficou por dizer, talvez um dia a nossa conversa comece por aí.

Fiquei só quando partiste, rodeado de pessoas que me amam é certo, mas só. Os meus filhos nunca terão um avô, e eu não voltarei a ter um pai.

Espero que esta carta te chegue intacta. Sei que não terei uma resposta, mas isso não importa agora.

Com saudades sinceras,

O teu filho