Porque nem só de cartas vive o Homem…XV – Margarida a Casamenteira

1Margarida não tinha muito jeito para falar inglês, nunca se ajeitou a fazer bordados, ainda tentou aprender a tocar guitarra mas sem qualquer resultado. Mas havia uma coisa que a Margarida fazia bem como ninguém – Juntar pessoas!

Aos 7 anos juntou a Carla e o Alfredo no recreio da escola, hoje estão casados e têm 4 filhos, Margarida é a Madrinha da mais velha. Aos 12 juntou o Pedro e a Filipa e resultou bem durante algum tempo, até aparecer o Ricardo, não a Filipa não se apaixonou pelo Ricardo, mas já o Pedro… Mas nada que abalasse a veia casamenteira de Margarida, aos 17 conheceu o seu Zé, agarrou-o por um braço e nunca mais se largaram, aos 21 enquanto a prima Joana passava as férias em sua casa, juntou-a ao seu cunhado Hugo, afinal nem Joana nem Hugo queria servir de vela para Margarida e Zé.

Quando tinha 39 anos juntos Rosália e Fernando, duas almas sozinhas, residentes no lar onde Margarida era assistente. O facto de Rosália ter uma bacia deslocada e Fernando ser surdo que nem uma porta, a demoveu de tornar a vida daqueles dois idosos mais colorida.

Mais recentemente Margarida juntou André e Liliana. Margarida além de trabalhar durante as manhãs num lar, fazia também a partir das 19h umas limpezas numa empresa. Era um edifício grande, com muito chão para limpar e mesas para arrumar. Embora fossem ao fim do dia, já depois do expediente da maioria dos funcionários, era comum encontrarem alguns que ficavam até mais tarde. Por norma Margarida começava pela sala das vendas, enquanto a sua colega arrumava a sala de reuniões. Tinham ordem para perguntar primeiro se podiam começar a limpar, sempre que se encontrasse algum trabalhador ainda no seu posto. André era sempre o último a sair, gostava de ficar até mais tarde, depois de todos saírem era o momento em que era mais produto, o silêncio permitia-lhe organizar o trabalho para o dia seguinte.

– Boa tarde André ainda por aqui?

– Já estou quase a sair, falta-me só organizar aqui uns papeis, mas se quiser pode começar a limpar que não incomoda.

– É sempre o último a sair, não tem vontade de ir para casa, descansar para junto da família, da namorada…

– É igual Margarida, a minha família está toda no norte, à minha espera em casa nem cão nem gato…e muito menos namorada…pelo menos aproveito para trabalhar.

– Aproveite a vida menino…olhe que o tempo que passa a trabalhar não lhe trará felicidade. Eu se não fosse o facto de ter a minha Andreia na universidade não andava aqui a limpar depois de um dia de trabalho.

– É isso que os pais fazem Margarida, sacrificam-se pelos filhos.

– Mas vale a pena André, vale muito a pena para ver aquela menina chegar longe. Não é por ser minha filha, mas o raia da miúda é mesmo inteligente e boa aluna. Por ela trabalharia dia e noite, tenho muita sorte em ter uma menina tão boa.

– A sua filha tem muita sorte em ter uma mãe como a senhora!

Margarida gostava de falar com André, porque ao contrário da maioria dos outros trabalhadores que estavam na empresa àquela hora, ele não a tratava como se fosse um ser invisível.

Depois de umas semana sem ir fazer limpeza devido a uma queda que havia dado, Margarida voltou à sua rotina e ao seu segundo trabalho. Como habitualmente Margarida começa a limpeza pela sala das vendas, desta vez não está só o André na sala, mas também uma rapariga muito bonita. Devia ser nova, aquela mesa estava desocupada fazia tempos.

– Posso começar a fazer a limpeza ou preferem que espere?

– Olá Margarida, então e essas férias? Foram boas?

– Olá André, não foram férias, antes fosse. Dei uma queda e olha…

– Mas está tudo bem?

– Sim já está tudo bom, disse Margarida sorrindo.

– Posso começar a limpar?

– Liliana importas-te que a Margarida comece a limpeza? perguntou Ricardo.

Margarida reparou no olhar brilhante que André tinha quando falou para a rapariga.

– Claro que sim, estou quase a acabar! Respondeu a moça.

Qual santa Antónia casamenteira, Margarida começou a engendrar um plano para juntar estes dois. O primeiro passo era saber se a rapariga tinha namorado, não tinha aliança e era demasiado nova para estar casada. Confirmou que vivia em casa dos pais quando, ao ir despejar o lixo, ouviu uma chamada de Liliana para que o pai a fosse buscar.

– Então Liliana à espera de boleia?

– Sim, estou sem carro e o meu pai ficou de me vir buscar, mas hoje parece que vou ter de esperar bastante, está preso no transito… um acidente de um camião no meio da estrada.

– O André deve estar a sair, se lhe pedir ele dá-lhe uma boleia com toda a certeza.

Liliana ficou vermelha, a sua pele branca encheu-se de sangue.

– Não é preciso, não faz mal eu espero ou chamo um táxi ou assim.

André ia a sair naquele momento, e Margarida aproveitou para atalhar a foice.

– André olha que a menina está sem boleia hoje, não vai ficar aqui sozinha até o pai chegar. Nós só saímos daqui a uma hora e meia e a menina não pode ficar aqui sozinha. Podes dar-lhe uma boleia? Disse Maria piscando subtilmente o olho.

– Err.. Claro que sim disse André meio atrapalhado, mas percebendo a dica de Margarida.

– Não é preciso, não precisas de te incomodar…a sério, respondeu Liliana.

– Claro que é preciso! disse Margarida, daquela forma que só uma mãe sabe dizer, Então tem algum sentido ficar aqui este tempo todo à espera quando pode ter a boleia de uma colega de trabalho. E olhe que o André é bem jeitosinho, tivesse eu menos 20 anos e não fosse o meu Zé o amor da minha vida e não sei não…

André estava cada vez mais atrapalhado, mas Liliana percebeu que era melhor do que estar à espera.

– Olha se não for mesmo muito incomodo eu aceito a boleia.

– Claro que não é incomodo, onde moras?

– Na quinta de Santo António, ao pé do Aki, respondeu Liliana.

– A sério? Eu também moro aí perto, moro por cima da pastelaria pérola.

– Estão a ver até são vizinhos e tudo, é o destino meus meninos é o destino.

Ao ver o carro arrancar do estacionamento, Margarida sentia que tinha feito a sua magia novamente. André e Liliana ainda não o sabiam, mas acabavam de ser juntos pelo destino, e pela ajuda preciosa de Margarida.

Porque nem só de cartas vive o Homem…XI – Espelho Meu

ced_25071b24462bb68_c25e0977-postOlhou-se no espelho para retocar o bâton. Por vezes não reconhecia a mulher que estava do outro lado do espelho, as rugas não a assustavam mas deixavam-na apreensiva. Filipa é uma mulher bela, é vistosa e sabe disso, mas a cada dia que passa precisa de mais tempo em frente ao espelho para ser, ou tentar ser, a mulher que aparenta.
Saber envelhecer é uma arte, pensou para si mesma.

A pele já não tinha a firmeza de antes, o cabelo, loiro e bem tratado, precisava de pintura com cada vezes menos espaçamento de tempo. As pernas estavam firmes, ‘de fazer inveja a muita menina de 20 anos’ dizia-lhe amiúde o marido. A ideia de envelhecer não a assustava, mas deixava-a pensativa, e pensativa ficou ao ver-se no espelho naquele inicio de noite.
– Ah, estas aqui! Andava à tua procura, disse-lhe Ricardo ao ouvido.
– Achas que sou bonita?
– Claro que sim! Que pergunta tão tola, és a mais bonita mulher que está neste planeta, quiçá do universo!
– Não sejas parvo, não achas que estou a ficar velha?
– Acho, mas é normal Filipa, esse é o rumo do tempo, passa e envelhecemos. Mas deixa-me que te diga, se te visse na rua e não fosse teu marido teria muita dificuldade em não olhar para ti, és uma mulher tesuda, bonita e o teu cheiro…deixa-me completamente louco.
Filipa sorriu. Ricardo sabia sempre deixá-la bem disposta, mesmo que por vezes exagerasse um pouco.
-Estou pronta, vamos para dentro?
– Espera só um pouco, diz-lhe Ricardo ao ouvido enquanto a abraça por detrás.
– Porquê?
– Quero ficar um pouco agarrado a este pedaço de mau caminho que é a minha mulher. Se morresse hoje era esta a imagem que queria ter na minha mente. Mesmo quando fores velhinha, andarei atrás de ti de bengala a afugentar os velhos babões cheios de viagra. Foi o teu corpo que me fez olhar para ti na primeira vez, mas é a tua essência que me faz continuar contigo todos estes anos. Não te trocava por nada, ficaria sempre a perder, e a prova está aqui neste espelho.

Porque nem só de cartas vive o Homem…VIII – Filipa a Triste

sapeurs9Toda a gente achava que Filipa era uma pessoa triste. Por várias vezes lhe haviam perguntado:
– Porque está sempre com essa cara de tristeza?
Filipa respondia sempre o mesmo – É a minha cara, não tenho outra!
Passado algum tempo as pessoas achavam que Filipa não era triste, mas amargurada, e passaram a perguntar-lhe: – Que raiva é essa que trazes no coração?
Filipa farta de perguntas começou a responder: – No meu passado existem episódios que me deixaram assim.
Esta resposta satisfazia toda a gente, depois de um olhar complacente e uma palmada nas costas seguia-se sempre um -Deixa lá o tempo cura tudo ou Se precisares de falar sobre isso…
Ninguém sabia que Filipa não era nem amargurada nem triste, era apenas assim, uma pessoa que não precisava de sorrir para estar feliz, na verdade Filipa era feliz sozinha, e isso parecia incomodar todos à sua volta.
Embora gostasse de estar só, no seu espaço, entretida com os seus próprios pensamentos, por vezes Filipa pensava como seria encontrar alguém com quem pudesse partilhar esta solidão. Rapidamente estes pensamento passavam e Filipa volta a escutar a preocupação alheia de quem não concebe a vida humana solitária, e secretamente, na sua mente, vai continuar a mandá-los para …. um qualquer sítio.

Porque nem só de cartas vive o Homem…VII – As duas mães.

sapeurs9Todos os dias estes dois estranhos cruzavam olhares no autocarro. Os primeiros olhares eram tímidos e fugazes, inocentes e cheios de curiosidade. Um olhar rápido e ele reparou na madeixa loura dela. Num movimento com o cabelo, ela reparou na pequena cicatriz dele abaixo do lábio. Dois estranhos que se conheciam apenas dos olhares. Quando um deles não aparecia, o autocarro por mais cheio que fosse parecia vazio…talvez fossem os seus corações que estranhavam as ausências dos olhares.  Nestes últimos tempos ele já não disfarçava o olhar, olhava e sorria. Ela olhava para o lado, por não conseguir controlar o facto de ficar tão vermelha e fingia não ver o sorriso, mas por dentro ela sorria.

………………….

Hoje perderam ambos o autocarro, ficaram os dois na paragem. Caía uma chuva miudinha mas nenhum dos dois notou. Ele arriscou umas palavras.

– Parece que temos de esperar pelo próximo.

Ela corou e respondeu, – Sim, mas daqui a dez minutos temos outro.

– Acho que não, este é o último autocarro!

– Não pode ser, ainda são seis e meia, temos outro às seis e quarenta. respondeu ela com toda a certeza .

– Talvez o teu relógio tenha parado, já são seis e quarenta e quatro!

– A sério?! Bolas, vou ter de ligar à minha mãe.

Ele sorriu.

– Alô mamã, perdi o autocarro…sim o relógio deve ter parado…não podes? ..Ok vou  ligar-lhe beijinho mamã! Desligou a chamada para logo de seguida fazer outra.

– Olá mãe, perdi o autocarro…sim não me apercebi, podes vir buscar-me?… Ok obrigado, sim estou aqui… ok até já, beijinhos.

– Pronto daqui a 15 minutos a minha mãe vem buscar-me, nós fazemos o mesmo trajecto, se quiseres podemos dar-te boleia.

– Olha e eu aceito, assim evito ligar ao meu pai que de certeza ia demorar pelo menos uma hora a chegar aqui.

– Já agora sou o Ricardo!

-Eu sei! Respondeu ela sorrindo.

– Sabes? Perguntou Ricardo curioso.

– No outro dia o teu amigo chamou-te e eu ouvi.

– Ok, então já tinhas reparado em mim?!

– Já te tinha visto uma ou duas vezes! respondeu-lhe ela a sorrir.

– E tu como te chamas?

– Alice.

– A sério? Adoro esse nome, é o nome da minha avó!

– Alice corou e desta vez não deu para disfarçar.

– Posso fazer-te uma pergunta? Perguntou Ricardo sem certeza.

– Acho que sim, respondeu-lhe Alice.

– Fizeste duas chamadas, em ambas chamaste mãe….

Alice sorriu…

– Não penses que sou homofóbico, ou assim, mas achei curioso.

– Porque haverias de ser homofóbico?

A conversa estava a tornar-se um pouco estranha para Ricardo que não estava a perceber nada.

– Por nada, respondeu Ricardo cada vez mais confuso.

Alice sorriu, já tinha percebido o que Ricardo estava a pensar, mas decidiu deixá-lo um pouco envergonhado, ele ficava adorável assim encavacado.

– Sim tenho duas mães, respondeu Alice. Mas não da forma como pensas. Tenho uma mãe biológica e outra adoptiva.

– Ahhh! Exclamou Ricardo sorrindo.

– Também tenho dois pais, quatro avós e quatro avôs. Fui adoptada quando era pequena porque a minha mãe biológica não tinha condições para me criar, mas nunca perdemos o contacto e a vida deu muitas voltas. É uma dinâmica familiar estranha, mas tudo corre bem, porque existe amor verdadeiro entre todos.

– Bem que história. Olha já eu não tenho mãe, morreu quando eu era pequeno, mas em compensação tenho um pai que vale por 100.

A chuva já tinha parado, nenhum dos dois se tinha apercebido. Os 15 minutos na realidade foram 30 mas pareceu ambos poucos segundos.

– A minha mãe chegou, vamos?!

Porque nem só de cartas vive o Homem…VI – João o Engraxador de Almas

João foi engraxador, aliás é um engraxador! Usando um paralelismo já muito escutado “podes tirar o homem da graxa, mas não podes tirar a graxa do homem!”

sapeurs9Todos os dias de manhã a caminho do trabalho paro aqui, na verdade nem é tanto pelo serviço, que embora de excelência, já deixou de ser há muito, importante para a maioria das pessoas!

Quando me iniciei no mundo nos negócios, há 30 anos atrás, era tudo muito diferente. O meu padrinho, mentor e amigo sempre me disse: ‘Nunca confies num homem que não tenha os seus sapatos impecáveis!’

Há mais de 30 anos que engraxo os sapatos, há cerca de 15 anos descobri o João, um miúdo novo que me abordou no caminho. Normalmente a caminho do trabalho não passava por aquela rua, mas naquele dia calhou…

– Bom dia senhor, desculpe assim o mau jeito…reparei que tem uns sapatos impecavelmente limpos. Eu sou engraxador, costumo estar por nesta rua. Se algum dia decidir experimentar os meus serviços está à vontade! a primeira é uma oferta, se não gostar do serviço, pelo menos não paga por ele!

Aquela abordagem foi ao mesmo tempo estranha, mas também familiar. Fez-me recuar muitos anos antes, no começo da minha carreira de comerciante, quando andava porta a porta a tentar vender.

– Eu costumo ter um engraxador fixo na rua das flores, mas quem sabe um destes dias passe por aqui.

– Muito obrigado senhor, desejo-lhe um dia radiante!

Dias depois passei por essa mesma rua. Lá estava ele a engraxar.

– Bom dia! É para engraxar? Estou mesmo a terminar este cliente, diz-me este jovem de dentes incrivelmente brancos e um sorriso simples.

– Bom dia! Eu espero sem problema, afinal vai ser de graça respondi eu em tom de troça!

– Olhe que não se vai arrepender, ninguém engraxa sapatos como aqui o nosso João, respondeu-me o velhote que estava sentado na cadeira e tinha o sapato esquerdo a ser finalizado.

……………………………

– Bom dia senhor senhor Fernandes.

– Bom dia João, então e como está hoje a correr a manhã?

– Está normal, já atendi 3 fregueses, mas e uma raridade para os dias que correm, vou notando cada vez menos pessoas a procurar este tipo de serviço. Não há novos clientes. hoje em dia os homens novos já não usam sapatos…

– São os tempos a mudar João, ou acompanhamos ou ficamos pelo caminho! Olha lá… e nunca pensaste em deixar a vida de engraxador? Pelo menos há 3 anos que te vejo aqui todos os dias, de segunda a sexta!

– E ao sábado também, o senhor Fernandes é que não aparece! diz João sorridente!

– Nunca pensaste em mudar de vida? Fazer outra coisa, ter outra profissão!

– Eu não senhor Fernandes, não sei fazer mais nada, e gosto do que faço, é uma profissão suja, cansa bastante e quando chove tenho de mudar de lugar, mas é isto que eu sei fazer, esta é a minha vida!

– Sabes que eu precisava de alguém para o meu armazém… podias ir para lá trabalhar se quisesses!

– O senhor Fernandes é um bom cliente, perdoe-me a ousadia de dizer, um bom amigo. Mas eu sou como um canário, gosto de estar ao ar livre, de poder sentir o movimento da rua, as pessoas que passam, gosto de estar atento a tudo o que se passa, desde senhor do quiosque que tem uma paixão pela Maria da florista, até ao miúdos que por aqui passam e ficam a olhar enquanto eu engraxo os sapatos de algum freguês! Mas o que eu gosto mesmo é de falar com as pessoas, de as ouvir. Gosto de pensar que enquanto eu lhes abrilhanto os sapatos, não é apenas a sujeira que está a sair dos sapatos, pois enquanto eles conversam comigo sai também dor, cansaço, tristeza dos seus corações! Gosto de pensar que limpo sapatos fisicamente, mas que a minha presença aqui faz um pouco mais!

– De facto és um homem extraordinário João! A minha porta estará sempre aberta, se algum dia decidires mudar de vida, fala comigo.

Os cerca de 10 minutos que eu passava por dia com o João, de facto aliviavam-me a alma, a cabeça. Por momentos deixava de pensar em facturação contas fornecedores, dividas créditos, encomendas… naqueles momentos era apenas eu e o João, dois homens numa troca mais do que comercial. Na verdade às vezes invejo a vida do João, ele é sempre feliz, mesmo sujo de graxa, mesmo com as unhas completamente pretas. Ele é feliz mesmo com os poucos trocos que arrecada por dia, é feliz mesmo tendo um trabalho que mais ninguém nesta cidade quer fazer, que mais ninguém nesta cidade faz! Dizia-me no outro dia o João em tom de resignação:

– Já ninguém faz durar os sapatos como o senhor Fernandes! As pessoas hoje em dia, trocam tudo! O sapato já não vai ao sapateiro, e já não é engraxado, se está sem sola vai para o lixo. Mas sabe que não são os sapatos que me preocupam, nem tão pouco a minha profissão. O que me preocupa são mesmo as pessoas! anda tudo cada vez mais depressa, hoje é tudo ‘descartável’! Li esta palavra num jornal no outro dia, e isso preocupa-me. Não os sapatos, mas as pessoas, as pessoas também se podem tornar descartáveis!

……………………………

Faz mais de uma semana que não vejo o João! Estou preocupado com esta ausência. Durante cinco anos o João manteve sempre os seus 2 ou 3 lugares fixos. Já vais para uma semana que eu não o vejo! Hoje liguei para o escritório a avisar que não ia o dia todo! Estou deveras preocupado com o João! Sei que ele costumava ficar numa pensão na Rua dos Britos…

– Bom dia, por acaso o João engraxador não está por aqui, já não o vejo há uns dias, e como não é normal!

– O senhor é da família?

– Não, sou apenas amigo! O João não tinha família que eu saiba!

– Então não sabe o que aconteceu?!

– Ó mulher diga logo que me está a deixar nervoso!

– Lamento mas o João morreu…

– Morreu?! Mas como?

– Uma destas noites foi atacado por 4 bandidos. Meteram-se com ele para o roubar, quando viram que não tinham dinheiro destruíram-lhe a caixa de engraxar. Ele tentou resistir e um deles espetou-lhe uma navalha no pulmão! Diz que ele até podia ter sobrevivido, mas os cobardes fugiram e deixaram o pobre homem ali, estendido na rua a esvair-se em sangue! De madrugada os homens da limpeza encontraram-no e já estava morto.

Naquele momento o mundo parou! As palavras da mulher ecoavam na minha cabeça…O João morreu, O João morreu…

Naquele momento percebi que não fui apenas eu que perdi um amigo, o mundo perdeu uma boa pessoa, e o pior é que nem se vai dar conta disso! O João tornou-se descartável…uma vida, uma amizade perdida por estupidez, por um bando de arruaceiros que não sabem que a vida humana não tem valor, e caso tivesse, a do João seria por certo das que teria um valor mais elevado.

Nos dias seguintes tentei perceber onde estava enterrado, comprei o terreno, mandei fazer uma campa decente. A lápide ficou com a inscrição ‘Em memória de João Antunes, homem engraxador e amigo’.

Hoje já não há engraxadores de rua, os poucos que existem estão em espaços comerciais revivalistas, onde jovens de barba farta e bigode grande, tentam fazer uma espécie de engraxamento, mas usam luvas para não sujar as mãos…Um engraxador que não sinta a graxa nas mãos não pode fazer um bom trabalho.

Faz hoje dez anos que o João morreu, e finalmente é inaugurada a estátua que eu mandei fazer em honra deste meu amigo, uma pequena estátua em bronze de um engraxador e a sua caixa. A câmara municipal deu-me autorização para a colocar na rua onde conheci o João. Não houve nenhuma cerimónia protocolar, apenas os funcionários da câmara que colocaram a estátua no local, e eu, a Maria da Florista e o Francisco do quiosque.

A humanidade nunca vai saber o bem que fizeste, mas nós, os pouco que tivemos o privilégio de privar contigo, saberemos!

Porque nem só de cartas vive o homem…II

1Entrou no autocarro com um semblante pesado, nada que eu não estivesse habituado a ver, mas neste caso a face era demasiado jovem e demasiado bonita para estar assim.

– Para onde vai? Perguntei eu?

– Para qualquer lugar, respondeu-me num tom baixinho. – Na verdade não tenho destino, quero apenas entrar e sentar-me um pouco.

Por momentos pensei que pudesse ser uma qualquer maluca, dessas que se ouve falar no noticiário das 20h, mas o meu instinto dizia-me que ali não havia perigo, havia sim muita tristeza.

– O autocarro só parte daqui a 20 minutos, disse eu, mas se quiser pode sentar-se um pouco, e logo decide se quer ir para algum lado.

– Obrigado, disse ela sem grande entusiasmo.

Espero não me estar a meter em nenhuma alhada, pensei eu baixinho enquanto a observava pelo retrovisor. Sentou-se a meio do autocarro e começou a chorar. Oh que caraças… era mesmo o que me faltava, uma maluca com um desgosto qualquer e no meio de tanto autocarro entra logo no meu. De repente veio-me à cabeça a minha Matilde, esta rapariga tem idade para ser minha filha, também não custa nada perguntar se ela precisa de ajuda ou assim. Levanto-me e lentamente começo  a caminhar na sua direcção, na minha cabeça ecoa um pensamento, “tá mas é quieto Antunes deixa a maluca da mão!”, ignorei este pensamento e sentei-me no banco à frente do dela.

– Sabe que tenho uma filha que deve ter a sua idade. Não gostava nada que ela entrasse assim num autocarro sozinha a esta hora, e muito menos que estivesse a chorar. Não tenho a ver com isso, mas confie em mim menina, mesmo sendo apenas um simples condutor de autocarro, já vivi muito nesta vida, todos os dias vejo pessoas tristes, apaixonadas, preocupadas, sem dinheiro, apanho de tudo. Não há nada que o tempo não cure, não há nada que não se resolva com uma boa noite de sono.

– Obrigado.

– Ora essa menina, não fiz nada!

– Preocupou-se, e isso neste momento é muito importante para mim.

– Mas passa-se algo de grave consigo? Tem algum problema de saúde?

– Não necessariamente…é um problema de coração partido…

– Oh menina então é por isso que está a chorar?! Então está tudo bem…olhe eu casei 3 vezes, apaixonei-me umas 9 e tive apenas 1 grande amor, e estou aqui rijo. Sabe o que lhe digo, não há dor maior nem melhor, nem mais merecida que a dor do amor. É a única dor que nunca me vou importar de ter na vida, e olhe que já vivi qualquer coisinha. Se alguém faz chorar uma carinha tão bonita, das duas uma; ou é parvo ou não merece que a menina chore por ele! Vá chore lá tudo que isso amanhã já está melhor.

– Boa noite Antunes, está frio ou quê?!

– Olhó Fernandes, vieste cedo hoje rapaz!

– Tive de passar na farmácia e saí mais cedo.

– Olha estava aqui a falar com esta menina, que tem uma dor de coração.

– Eh lá, então e não vai ao médico?

– É outro tipo de dor ó caramelo!

– Ahhh, isso passa moça. Olhe estou casado faz para o mês que vem 35 anos! Amo a minha Eduarda como ninguém, mas comi o pão que o diabo amassou por aquela mulher! Foram 3 anos, 3 anos até a convencer a sair comigo. Sofri muito mas no fim valeu a pena. 3 filhos 4 netos e uma companheira como não há igual, acredite que sofreria tudo de novo! Mas a menina ainda é tão nova, vai ver que rapidamente isso passa e vai encontrar alguém que a mereça.

– Sim, talvez tenham razão…

– Não é talvez menina é como lhe digo! Sabia que o Antunes já foi casado 4 ou 5 vezes?

– Foram 3 vezes pá, quais 4 ou 5.

– Pronto foram 3 vezes, mas a verdade é que ainda está vivo, ninguém morre de amor. E você não vai ser a primeira! Toca a arribar que esta vida é curta, e quando der por si já está com 60 anos e com dor nas costas.

A moça sorriu, quem diria que a entrada neste autocarro a deixaria um pouco mais animada. Quando entrou procurava ir para algum lugar sem destino, quando sair o destino continuará incerto, mas pelo menos leva um sorriso e a alma mais leve.

-Ó Antunes e o Sporting pá..é este ano?

– Acho que não é desta ainda…..

– E a menina o que acha do Sporting? Perguntou Fernandes piscando o olho.

– Acho que o treinador não é mau, mas a direcção não percebe muito daquilo, respondeu-lhe a rapariga.

– Olha querem ver que temos aqui uma entendida em bola, tás a ver Antunes é isto que eu te digo sempre, aquele presidente estava bem era calado!

– O Sporting sim menina é caso para choro, tudo o resto é levar com calma que se resolve!

……….

Porque nem só de cartas vive o homem…

5

Peguei na mão dela e disse-lhe:
– Vem comigo!
– Onde vamos papá?
– Já vais ver, é uma surpresa…
Entramos na loja e rapidamente os olhos de Maria se iluminam. Foi ali, foi naquele preciso momento, que descobri uma nova paixão da minha filha. Não havia secção infantil, nem cds de cantoras da moda, não havia cantoras das novelas, nem animais cantantes. Esses, ela têm todos! Estes são novos, não se escolhem apenas por serem da moda. É necessário perder tempo, temos de verificar o estado e pedir para tocar, sentar um pouco e apreciar. É isso que quero dar à minha filha, um pouco de tempo para apreciar as maravilhas da simplicidade.
Passaram-se 4 horas, e Maria continua maravilhada percorrendo todos os discos que conseguia chegar. A moça da loja (bem bonita por sinal) deixou-a tocar todos os discos que ela ela queria. O gesto de colocar o vinil com todo o cuidado, o pousar suave da agulha sobre o disco, era feito de uma forma tão cuidadosa que dá sensação de que a Maria fazia aquilo desde sempre. Do alto dos seus 7 anos, a minha filha enchia-me de orgulho!

………………………..

Nessa tarde, depois de horas à volta dos discos parámos na pastelaria para lanchar. A Maria comeu uma bola de berlim e pousou cuidadosamente o saco onde levava um James Brown, uma Patti Smith e um Best Of, num estado super impecável, de Vaya Con Dios. Já eu estava indeciso entre uma torrada ou um pastel de nata. Há dias em que nos sentimos realizados, hoje era um desses dias. Além de levar uma filha mais feliz, ainda levei um número de telefone. O papel dizia Joana, o número começava por 91qualquer coisa mas eu só me lembrava dos olhos verdes.

………………………..

– Espero que tragas a Maria novamente aqui à loja, acho que tens aí uma pequena amante de vinis, é tua sobrinha?
– Claro que a voltarei a trazer! Mas não pode ser sempre como hoje, senão vou à falência rápido! Disse eu a sorrir. E não é minha sobrinha…é minha filha!
– Desculpa, como reparei que não tinhas aliança… espero que ela não diga nada à mãe.
– Não te preocupes, pela minha parte pode dizer. Não somos casados, nem estamos juntos, mas somos muito bons amigos, a Maria é fruto de uma breve paixão que se transformou numa grande amizade.
– Desculpa, não queria ser indiscreta…
– Pois já eu vou ser! Tu tens namorado? marido, amante, amizade colorida?
Joana sorriu e respondeu
– Não nada disso, mas tenho um gato! Mas porquê..estás a candidatar-te?
– Não sei, dá-me o teu número e logo se vê.
– Ok, tens aí o telemóvel?
– Não uso…
– Não usas telemóvel?
– Não! Que dizer não uso fora do horário de trabalho! Por alguma razão trouxe a minha filha a uma loja de vinis! Algumas coisas merecem ser feitas com calma, merecem ser apreciadas.
– Ok, esperarei um telefonema…
– Ou uma visita!
– Sim, ou uma visita!
– Talvez não tenhas de esperar muito, Mariazinha diz adeus à nossa amiga Joana …
– Adeus Joana…
– Adeus Maria não te esqueças de me vir visitar, e trás o teu pai para poderes levar mais uns discos. Diz Joana piscando o olho na minha direção.
………………………..

– Pai, sabias que agora adoro discos todos?! Podemos ouvir outra vez quando chegarmos a casa?
– Claro que sim filha, vamos ouvir todos e dançar até cair para o lado!
– Paiii…a Joana é tua namorada?
– Ainda não filha, porquê tu gostavas?
– Sim, ela é fixe…e tem muitos brincos!
– Se tu aprovas meu amor…!