Porque nem só de cartas vive o Homem…IX – O vídeo do Youtube

sapeurs9Alberto não era pessoa de grandes riscos. Gostava de ter as coisas certas nos lugares certos. Aquele encontro com Diana foi como um tornado na sua vida. Naquela noite foi a uma festa e bebeu, o que não era habitual e divertiu-se (o que também não era habitual) e por momentos sentiu-se livre. Já meio alegre cirandou pelo jardim da casa e viu um grupo de pessoas, sentados numa mesa à beira da piscina e aproximou-se.

– Queres uma passa? Pergunta-lhe uma rapariga loira e muito bonita.
– Epá, pode ser! respondeu Alberto. É o quê?
– Erva, disse a moça engolindo o fumo e passado-lhe a erva.
Alberto não fumava cigarros, charutos ou ganzas, mas não estava a querer dar parte de fraco.
– Não tens de fumar se não quiseres, disse-lhe a rapariga percebendo a sua hesitação.
– Pois…se calhar é melhor não fumar!
– Mas podes ficar aqui, sou a Diana.
– Sou o Alberto.

– Deves ser a única pessoa de fato e gravata nesta festa, disse-lhe sorrindo.

– Pois, sabes que vim directamente do trabalho, ainda nem jantei!

– E tens estado a beber?

– Sim…respondeu Alberto fazendo uma cara de miúdo traquina.

Nessa noite Alberto não fumou a sua primeira ganza de erva, mas conheceu uma pessoa muito interessante e bebeu…mais do que a conta.

Eram 17:42 quando o telefone tocou. Alberto não conhecia o número, mas atendeu.
– Estou sim?
– Não me disseste que eras uma estrela, diz uma voz feminina do outro lado.
– Uma estrela? Mas quem fala?
– Sou eu a Diana, deste-me o teu número antes de ires embora, na sexta na Casa da Joana.
– Ahhh olá! Pois bebi mais do que devia é verdade! Nem me lembro de como cheguei a casa.
– E não me disseste que eras uma estrela! Tens um video no youtube…no metro, é super divertido, estava toda a gente a rir, é o máximo!
– O quê? Um vídeo meu? Tás a gozar comigo só pode!
– Não estou nada, vou enviar-te o link…
O vídeo, de menos de um minuto, mostrava Alberto no metro completamente bêbado, dançava e dizia “Diana i love you”.
– A sério…não acredito nisto. Lamuria-se Alberto.
– Olha eu acho fixe! Já tens 25 mil visualizações em dois dias e a crescer. Olha, e quem é a tal Diana?
– Epá, olha só te posso pedir desculpa, nem eu sei explicar o que me deu, eu por norma não sou assim!
– A sério? Olha e eu a pensar mesmo que tu eras do tipo de andar sempre completamente bêbado e a aparecer em vídeos do youtube!
– Vá lá não gozes.
– Estou só a brincar, queres ir beber um copo um dia destes?
– Claro…claro que sim, quando quiseres.

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Porque nem só de cartas vive o Homem…VIII – Filipa a Triste

sapeurs9Toda a gente achava que Filipa era uma pessoa triste. Por várias vezes lhe haviam perguntado:
– Porque está sempre com essa cara de tristeza?
Filipa respondia sempre o mesmo – É a minha cara, não tenho outra!
Passado algum tempo as pessoas achavam que Filipa não era triste, mas amargurada, e passaram a perguntar-lhe: – Que raiva é essa que trazes no coração?
Filipa farta de perguntas começou a responder: – No meu passado existem episódios que me deixaram assim.
Esta resposta satisfazia toda a gente, depois de um olhar complacente e uma palmada nas costas seguia-se sempre um -Deixa lá o tempo cura tudo ou Se precisares de falar sobre isso…
Ninguém sabia que Filipa não era nem amargurada nem triste, era apenas assim, uma pessoa que não precisava de sorrir para estar feliz, na verdade Filipa era feliz sozinha, e isso parecia incomodar todos à sua volta.
Embora gostasse de estar só, no seu espaço, entretida com os seus próprios pensamentos, por vezes Filipa pensava como seria encontrar alguém com quem pudesse partilhar esta solidão. Rapidamente estes pensamento passavam e Filipa volta a escutar a preocupação alheia de quem não concebe a vida humana solitária, e secretamente, na sua mente, vai continuar a mandá-los para …. um qualquer sítio.

Porque nem só de cartas vive o Homem…VII – As duas mães.

sapeurs9Todos os dias estes dois estranhos cruzavam olhares no autocarro. Os primeiros olhares eram tímidos e fugazes, inocentes e cheios de curiosidade. Um olhar rápido e ele reparou na madeixa loura dela. Num movimento com o cabelo, ela reparou na pequena cicatriz dele abaixo do lábio. Dois estranhos que se conheciam apenas dos olhares. Quando um deles não aparecia, o autocarro por mais cheio que fosse parecia vazio…talvez fossem os seus corações que estranhavam as ausências dos olhares.  Nestes últimos tempos ele já não disfarçava o olhar, olhava e sorria. Ela olhava para o lado, por não conseguir controlar o facto de ficar tão vermelha e fingia não ver o sorriso, mas por dentro ela sorria.

………………….

Hoje perderam ambos o autocarro, ficaram os dois na paragem. Caía uma chuva miudinha mas nenhum dos dois notou. Ele arriscou umas palavras.

– Parece que temos de esperar pelo próximo.

Ela corou e respondeu, – Sim, mas daqui a dez minutos temos outro.

– Acho que não, este é o último autocarro!

– Não pode ser, ainda são seis e meia, temos outro às seis e quarenta. respondeu ela com toda a certeza .

– Talvez o teu relógio tenha parado, já são seis e quarenta e quatro!

– A sério?! Bolas, vou ter de ligar à minha mãe.

Ele sorriu.

– Alô mamã, perdi o autocarro…sim o relógio deve ter parado…não podes? ..Ok vou  ligar-lhe beijinho mamã! Desligou a chamada para logo de seguida fazer outra.

– Olá mãe, perdi o autocarro…sim não me apercebi, podes vir buscar-me?… Ok obrigado, sim estou aqui… ok até já, beijinhos.

– Pronto daqui a 15 minutos a minha mãe vem buscar-me, nós fazemos o mesmo trajecto, se quiseres podemos dar-te boleia.

– Olha e eu aceito, assim evito ligar ao meu pai que de certeza ia demorar pelo menos uma hora a chegar aqui.

– Já agora sou o Ricardo!

-Eu sei! Respondeu ela sorrindo.

– Sabes? Perguntou Ricardo curioso.

– No outro dia o teu amigo chamou-te e eu ouvi.

– Ok, então já tinhas reparado em mim?!

– Já te tinha visto uma ou duas vezes! respondeu-lhe ela a sorrir.

– E tu como te chamas?

– Alice.

– A sério? Adoro esse nome, é o nome da minha avó!

– Alice corou e desta vez não deu para disfarçar.

– Posso fazer-te uma pergunta? Perguntou Ricardo sem certeza.

– Acho que sim, respondeu-lhe Alice.

– Fizeste duas chamadas, em ambas chamaste mãe….

Alice sorriu…

– Não penses que sou homofóbico, ou assim, mas achei curioso.

– Porque haverias de ser homofóbico?

A conversa estava a tornar-se um pouco estranha para Ricardo que não estava a perceber nada.

– Por nada, respondeu Ricardo cada vez mais confuso.

Alice sorriu, já tinha percebido o que Ricardo estava a pensar, mas decidiu deixá-lo um pouco envergonhado, ele ficava adorável assim encavacado.

– Sim tenho duas mães, respondeu Alice. Mas não da forma como pensas. Tenho uma mãe biológica e outra adoptiva.

– Ahhh! Exclamou Ricardo sorrindo.

– Também tenho dois pais, quatro avós e quatro avôs. Fui adoptada quando era pequena porque a minha mãe biológica não tinha condições para me criar, mas nunca perdemos o contacto e a vida deu muitas voltas. É uma dinâmica familiar estranha, mas tudo corre bem, porque existe amor verdadeiro entre todos.

– Bem que história. Olha já eu não tenho mãe, morreu quando eu era pequeno, mas em compensação tenho um pai que vale por 100.

A chuva já tinha parado, nenhum dos dois se tinha apercebido. Os 15 minutos na realidade foram 30 mas pareceu ambos poucos segundos.

– A minha mãe chegou, vamos?!

Carta da Amizade

2A amizade é uma coisa boa que cresce dentro do nosso peito. Ela alimenta-se de sorrisos, abraços e de pequenos gestos. Muitas vezes a amizade pode ser confusa,  é preciso olhar bem para ela e não a tomar por outra coisa, como amor ou paixão por exemplo. Não é estática, não é como um conjunto de tijolos que se vai empilhando para se tornar cada vez maior.A amizade adensa-se com a proximidade, mas cresce com a saudade, mas a saudade e a distância podem tornar a amizade mais pequena, acabando por desaparecer, mas nunca na totalidade, restará sempre uma memória.

Podemos ter amigos durante umas horas ou a vida toda, não se pode medir a força de uma amizade pelo tempo de um relógio ou um calendário, minutos, horas, dias ou anos nem sempre significam muito numa amizade, no entanto existe uma grande probabilidade de ser mais forte com o passar dos anos (mas como referi atrás, não sendo alimentada pode acabar por definhar).

Se tivesse de explicar a alguém o que é amizade, a melhor analogia seria sempre a de uma flor, começa numa pequena semente, cresce tornando-se viçosa, mesmo que venha o inverno e a flor fique seca e murcha. A semente, essa, está lá e basta regá-la com mais uns sorrisos, uns abraços para que acabe novamente por florescer. Por vezes as amizades (re)florescem com umas simples palavras, por vezes é um ‘Tinha saudades tuas’ outras vezes é um ‘Desculpa’.

A amizade dá-nos coisas maravilhosas, e a principal são os amigos! Eles são de várias cores e géneros. Alguns amigos são altos, outros são baixos, uns são louros de cabelo comprido e outros usam barba. alguns até surgem em forma de animal. Na verdade isto dos amigos às vezes é difícil de explicar, porque alguns são chatos e muito rabugentos, alguns são totalmente diferente de nós, mas o engraçado é que todos acabam por ter um espaço nesta bolha de felicidade que é a amizade.

Tentar perceber estas coisas da amizade só complica mais as coisas, tudo fica muito mais simples se não pensarmos muito nestes pormenores todos, a amizade é sentida e não pensada. A amizade não dá para contar pelos dedos, por vezes todos os dedos das mãos e dos pés não chegam para contar um único amigo. O truque não é saber o Quanto, mas sim o Quem.

Sobre a amizade haverá muito mais para dizer, mas todas as palavras não serão suficientes para descreve-la, isso apenas pode se dizer com um abraço.

Porque nem só de cartas vive o Homem…VI – João o Engraxador de Almas

João foi engraxador, aliás é um engraxador! Usando um paralelismo já muito escutado “podes tirar o homem da graxa, mas não podes tirar a graxa do homem!”

sapeurs9Todos os dias de manhã a caminho do trabalho paro aqui, na verdade nem é tanto pelo serviço, que embora de excelência, já deixou de ser há muito, importante para a maioria das pessoas!

Quando me iniciei no mundo nos negócios, há 30 anos atrás, era tudo muito diferente. O meu padrinho, mentor e amigo sempre me disse: ‘Nunca confies num homem que não tenha os seus sapatos impecáveis!’

Há mais de 30 anos que engraxo os sapatos, há cerca de 15 anos descobri o João, um miúdo novo que me abordou no caminho. Normalmente a caminho do trabalho não passava por aquela rua, mas naquele dia calhou…

– Bom dia senhor, desculpe assim o mau jeito…reparei que tem uns sapatos impecavelmente limpos. Eu sou engraxador, costumo estar por nesta rua. Se algum dia decidir experimentar os meus serviços está à vontade! a primeira é uma oferta, se não gostar do serviço, pelo menos não paga por ele!

Aquela abordagem foi ao mesmo tempo estranha, mas também familiar. Fez-me recuar muitos anos antes, no começo da minha carreira de comerciante, quando andava porta a porta a tentar vender.

– Eu costumo ter um engraxador fixo na rua das flores, mas quem sabe um destes dias passe por aqui.

– Muito obrigado senhor, desejo-lhe um dia radiante!

Dias depois passei por essa mesma rua. Lá estava ele a engraxar.

– Bom dia! É para engraxar? Estou mesmo a terminar este cliente, diz-me este jovem de dentes incrivelmente brancos e um sorriso simples.

– Bom dia! Eu espero sem problema, afinal vai ser de graça respondi eu em tom de troça!

– Olhe que não se vai arrepender, ninguém engraxa sapatos como aqui o nosso João, respondeu-me o velhote que estava sentado na cadeira e tinha o sapato esquerdo a ser finalizado.

……………………………

– Bom dia senhor senhor Fernandes.

– Bom dia João, então e como está hoje a correr a manhã?

– Está normal, já atendi 3 fregueses, mas e uma raridade para os dias que correm, vou notando cada vez menos pessoas a procurar este tipo de serviço. Não há novos clientes. hoje em dia os homens novos já não usam sapatos…

– São os tempos a mudar João, ou acompanhamos ou ficamos pelo caminho! Olha lá… e nunca pensaste em deixar a vida de engraxador? Pelo menos há 3 anos que te vejo aqui todos os dias, de segunda a sexta!

– E ao sábado também, o senhor Fernandes é que não aparece! diz João sorridente!

– Nunca pensaste em mudar de vida? Fazer outra coisa, ter outra profissão!

– Eu não senhor Fernandes, não sei fazer mais nada, e gosto do que faço, é uma profissão suja, cansa bastante e quando chove tenho de mudar de lugar, mas é isto que eu sei fazer, esta é a minha vida!

– Sabes que eu precisava de alguém para o meu armazém… podias ir para lá trabalhar se quisesses!

– O senhor Fernandes é um bom cliente, perdoe-me a ousadia de dizer, um bom amigo. Mas eu sou como um canário, gosto de estar ao ar livre, de poder sentir o movimento da rua, as pessoas que passam, gosto de estar atento a tudo o que se passa, desde senhor do quiosque que tem uma paixão pela Maria da florista, até ao miúdos que por aqui passam e ficam a olhar enquanto eu engraxo os sapatos de algum freguês! Mas o que eu gosto mesmo é de falar com as pessoas, de as ouvir. Gosto de pensar que enquanto eu lhes abrilhanto os sapatos, não é apenas a sujeira que está a sair dos sapatos, pois enquanto eles conversam comigo sai também dor, cansaço, tristeza dos seus corações! Gosto de pensar que limpo sapatos fisicamente, mas que a minha presença aqui faz um pouco mais!

– De facto és um homem extraordinário João! A minha porta estará sempre aberta, se algum dia decidires mudar de vida, fala comigo.

Os cerca de 10 minutos que eu passava por dia com o João, de facto aliviavam-me a alma, a cabeça. Por momentos deixava de pensar em facturação contas fornecedores, dividas créditos, encomendas… naqueles momentos era apenas eu e o João, dois homens numa troca mais do que comercial. Na verdade às vezes invejo a vida do João, ele é sempre feliz, mesmo sujo de graxa, mesmo com as unhas completamente pretas. Ele é feliz mesmo com os poucos trocos que arrecada por dia, é feliz mesmo tendo um trabalho que mais ninguém nesta cidade quer fazer, que mais ninguém nesta cidade faz! Dizia-me no outro dia o João em tom de resignação:

– Já ninguém faz durar os sapatos como o senhor Fernandes! As pessoas hoje em dia, trocam tudo! O sapato já não vai ao sapateiro, e já não é engraxado, se está sem sola vai para o lixo. Mas sabe que não são os sapatos que me preocupam, nem tão pouco a minha profissão. O que me preocupa são mesmo as pessoas! anda tudo cada vez mais depressa, hoje é tudo ‘descartável’! Li esta palavra num jornal no outro dia, e isso preocupa-me. Não os sapatos, mas as pessoas, as pessoas também se podem tornar descartáveis!

……………………………

Faz mais de uma semana que não vejo o João! Estou preocupado com esta ausência. Durante cinco anos o João manteve sempre os seus 2 ou 3 lugares fixos. Já vais para uma semana que eu não o vejo! Hoje liguei para o escritório a avisar que não ia o dia todo! Estou deveras preocupado com o João! Sei que ele costumava ficar numa pensão na Rua dos Britos…

– Bom dia, por acaso o João engraxador não está por aqui, já não o vejo há uns dias, e como não é normal!

– O senhor é da família?

– Não, sou apenas amigo! O João não tinha família que eu saiba!

– Então não sabe o que aconteceu?!

– Ó mulher diga logo que me está a deixar nervoso!

– Lamento mas o João morreu…

– Morreu?! Mas como?

– Uma destas noites foi atacado por 4 bandidos. Meteram-se com ele para o roubar, quando viram que não tinham dinheiro destruíram-lhe a caixa de engraxar. Ele tentou resistir e um deles espetou-lhe uma navalha no pulmão! Diz que ele até podia ter sobrevivido, mas os cobardes fugiram e deixaram o pobre homem ali, estendido na rua a esvair-se em sangue! De madrugada os homens da limpeza encontraram-no e já estava morto.

Naquele momento o mundo parou! As palavras da mulher ecoavam na minha cabeça…O João morreu, O João morreu…

Naquele momento percebi que não fui apenas eu que perdi um amigo, o mundo perdeu uma boa pessoa, e o pior é que nem se vai dar conta disso! O João tornou-se descartável…uma vida, uma amizade perdida por estupidez, por um bando de arruaceiros que não sabem que a vida humana não tem valor, e caso tivesse, a do João seria por certo das que teria um valor mais elevado.

Nos dias seguintes tentei perceber onde estava enterrado, comprei o terreno, mandei fazer uma campa decente. A lápide ficou com a inscrição ‘Em memória de João Antunes, homem engraxador e amigo’.

Hoje já não há engraxadores de rua, os poucos que existem estão em espaços comerciais revivalistas, onde jovens de barba farta e bigode grande, tentam fazer uma espécie de engraxamento, mas usam luvas para não sujar as mãos…Um engraxador que não sinta a graxa nas mãos não pode fazer um bom trabalho.

Faz hoje dez anos que o João morreu, e finalmente é inaugurada a estátua que eu mandei fazer em honra deste meu amigo, uma pequena estátua em bronze de um engraxador e a sua caixa. A câmara municipal deu-me autorização para a colocar na rua onde conheci o João. Não houve nenhuma cerimónia protocolar, apenas os funcionários da câmara que colocaram a estátua no local, e eu, a Maria da Florista e o Francisco do quiosque.

A humanidade nunca vai saber o bem que fizeste, mas nós, os pouco que tivemos o privilégio de privar contigo, saberemos!

Carta para o amor – Amar (também) é deixar partir

0_4Finalmente encontrei-o. Após tanto tempo de procura, noites perdidas e dias mal passados, consegui de uma vez por todas apanhá-lo. De forma alguma o tencionava deixar partir, agora era meu, finalmente tinha encontrado o AMOR. Foi algo procurado por tanto tempo, foi aplicada toda a minha vontade, toda a minha dedicação e bastante esforço. Não o podia perder, nem pensar nisso, nunca o deixaria partir. Tomei então a decisão mais acertada (pensava eu), disse para mim mesmo “-Vou colocá-lo num frasco, assim poderá estar sempre junto a mim!”

Tirei a inspiração de uma música, falava sobre como guardar o AMOR num frasco, fechá-lo bem para não fugir. Quando o coloquei no frasco, ele era viçoso e muito radiante. Todos os dias olhava o meu AMOR dentro do frasco, e ele enchia-me o coração. Não sei o que era, talvez uma aura mágica à sua volta, que me entrava pelos poros da pele, deixando-me quase em êxtase. Os dias passavam e o meu AMOR tornava-se cada vez menos radiante, cada vez menos intenso…não percebia o porquê…mas o meu coração já não se enchia tão facilmente. Pensei e chorei, pensei novamente e voltei novamente a chorar. A muito custo decidi abrir o frasco. Doía-me o coração, estava apertado e a angústia invadia-me o peito. Havia chegado a hora. Não quero, não quero… Teria de deixar partir o AMOR. No exacto momento em que abri o frasco, o meu coração subitamente encheu-se de AMOR, um AMOR mais forte, mais radiante, puro e brilhante. Todo o meu corpo vibrou, eu sorria enquanto o via partir, transformado em pequenas pétalas de rosas. Antes de o deixar de ver, o vento acariciou-me a parte de trás do pescoço, e sussurrou-me baixinho aos ouvidos…”Amar (também) é deixar partir”

(este texto já é antigo e já o publiquei em mais do que um lugar, mas gosto sempre de o revisitar)

Porque nem só de cartas vive o Homem…V – A Pesca

0_2Para dizer a verdade no começo nem gostava de pesca! Vinha para estar sozinho, pois embora não me agradasse a pesca, agradava-me a solidão que ela me trazia. Eu, água pelos tornozelos e tempo para gastar.

Comecei a pescar depois do meu primeiro ataque cardíaco…tive sorte disse o médico.

– … da próxima poderá ser bem pior! Desta vez teve sorte de ter alguém com competência para o socorrer de imediato, mas e para a próxima?

– Para a próxima é uma incógnita doutor! Pode nem haver uma próxima…
– Eu garanto-lhe que haverá uma próxima! Se continuar assim e não tiver qualquer tipo de cuidado com a sua saúde, morrerá cedo! Você é um homem novo, tem 40 anos mas o seu corpo começa a reagir como o de um homem de 70!

Se quer continuar vivo tem de seguir,por favor, os meus conselhos.

Aquela era uma fase da minha vida onde eu mesmo não sabia se queria estar vivo. Não tinha pensamentos suicidas, nada disso, mas era como se os meus dias se arrastassem uns atrás dos outros, lentos, cinzentos…vazios. Entrei numa espiral descendente, silenciosa e invisível. Psicologicamente estava arrasado, mas tentava não o demonstrar aos outros. O físico começou a ceder também, comia mais do que tinha vontade, não tinha qualquer cuidado com sal, gordura ou doces. Estava com peso a mais, algo estranho para quem sempre fora magro como eu.

Hoje compreendo que estava a tentar preencher, literalmente, um vazio criado pela sua falta. A Filipa tinha morrido 2 anos antes disto tudo. Um dia depois de uns exames de rotina, ela chega a casa e diz-me secamente!
– Tenho cancro!
De repente parece que deixei de ouvir, foi como se um zumbido agudo me tivesse tirado toda e qualquer audição.
– Tens a certeza? Tens de fazer novos exames, esses podem não estar correctos! O que te disse o médico?
– Que tenho cerca de 5 meses de vida! Que posso fazer quimioterapia, mas que no máximo me prolongará por mais 3 a 6 meses de vida!
– Não! Tu tens de fazer novos exames e…
– Estes já são os segundos!
– Como assim…e não me dizias nada?!
….
O médico tinha-se enganado, a Filipa teve mais 6 meses de vida. Morreu 6 meses e 13 dias depois de me ter dito que tinha cancro. Não fez quimioterapia, decidiu que se não a ia salvar, que não iria fazer. Queria viver o tempo que lhe faltava com alguma dignidade, à sua maneira.

Custou-me imenso! A dor da impotência era como uma faca, fria e afiada, que me cortava sempre que pensava neste assunto.  Tive de respeitar a sua decisão, era só dela, ela tinha esse direito! Morreu num chuvoso dia 12 de fevereiro… Assim de repente tiraram-me o chão…6 meses que me parecem 2 minutos…fim, dor, desorientação…dor, dor, dor, Dor!

A pesca foi ideia do meu amigo psicólogo, Pedro. Ele não me acompanhou clinicamente, mas foi um amigo presente. Um dia em conversa sugeriu que eu me afastasse mais, “para te reencontrares tens de sair de ti”. Foram palavras que estranhamente fizeram todo o sentido para mim. Os dias que passei sozinho naquela albufeira, obrigaram-me a enfrentar algumas coisas que eu evitava com a comida e o álcool.
Passaram exactamente 7 anos desde que comecei a pescar aqui. Hoje já só venho para recordar. Recordo os momentos, os risos, as discussões, mas acima de tudo a pessoa que a Filipa era, é, no meu coração.Tenho duas filhas pequenas e uma esposa fantástica, recuperei a minha vida, mas não esqueci. Não quero esquecer, não vou esquecer!

Venho à pesca para recordar, para estar só. Venho à pesca porque aqui posso estar sozinho contigo.

Porque nem só de cartas vive o Homem…IV – Maria a tartaruga

0_1Maria não era uma tartaruga qualquer. Desde sempre que sonhava com velocidade, grandes velocidades! Na verdade Maria era perseguida pelo seu passado familiar, muitos anos antes um tio avô dela, havia participado numa corrida que ficou celebre em todo o mundo. O seu tio avô correu contra uma lebre, fanfarrona e desleixada, essa lebre acabou por perder a corrida para a tartaruga. Desde sempre essa história foi contada na família de Maria, na verdade por vezes era um bom quebra gelo. Maria recorda-se como passou o seu primeiro dia de aulas, não conhecia ninguém mas após dizer que era da família de tão célebre tartaruga, logo foi recebida pelos restantes meninos em euforia e curiosidade. Mas o sonho de Maria não se prendia em chegar ao fim de qualquer corrida, o que ela sonha era sentir o vento no seu bico, sentir toda a força da velocidade a bater-lhe na carapaça. Numa das habituais reuniões familiares, o seu tio avô, estrela da família ainda nos dias de hoje, repara que Maria está triste.

– O que se passa contigo minha conchinha do mar? Pergunta o tio avô
– Nada, responde Maria sem grande convicção.
– Sim, nado muito bem! Gracejou o tio avô.
– Não seja tonto! O que sentiu quando venceu a sua corrida contra a Lebre?
– Não sei minha querida, parece que toda a gente sentiu aquele momento com mais intensidade do que eu. Na verdade ninguém esperava que eu ganhasse, principalmente eu!
– Mas não ficaste feliz? Perguntou Maria curiosa.
– Não mais do que o habitual minha conchinha! Na verdade eu fui empurrado para aquela corrida, não tinha nada a provar a ninguém, no entanto foi tanta a a pressão que acabei por participar… Fiquei contente em parte mas a minha vida ficou diferente! De repente de um dia para o outro era um celebridade, toda a gente queria falar comigo, rádio, televisão…acabou o meu sossego. Mas não significa que não tenha gostado. Mas ninguém se lembra da lebre, ninguém se lembra da profunda depressão em que entrou após aquela corrida, foi expulsa da sociedade das lebres, esteve muito mal… este foi o lado menos conhecido da história e mais triste da história.
– Não sabia disso, disse Maria meio triste!
– Não fiques triste minha conchinha, cada um de nós faz o que é melhor para si, a lebre recuperou e hoje está bem a vida e é respeitada. Talvez aquela corrida tenha sido necessária para ela também. Todos os domingos nos encontramos para lembrar do passado e conversar um pouco, somos bons amigos.
– Eu só queria saber o que é ser veloz, sentir o vento a passar na carapaça.
– Não desistas desse sonho, talvez um dia se torne realidade!
Dias passaram desde esta conversa entre Maria e o seu tio avô, quando a mãe chamou a Maria.
– Mariaaaa, tens correio para ti.
Correio? – pensou a Maria, quem lhe poderia escrever uma carta?
– Tens uma encomenda – diz a mãe.
– Uma encomenda? – pergunta a Maria ainda mais intrigada.
– É do tio avô tartaruga!
– Maria abriu e lá dentro estava um skate, e junto a ele uma carta.
– Maria abriu a carta e leu em voz alta para a mãe:
“Minha conchinha, fiquei a pensar na nossa conversa do outro dia, espero que este presente seja o primeiro passo de uma vida a outra velocidade. Sempre que te vejo penso que embora tenhas um corpo de tartaruga, o teu coração é de gazela! Beijos e segue sempre os teus sonhos”
Maria foi a primeira menina e tartaruga a ter um skate na sua rua. Quem sabe um dia também ela seja uma das famosas da família.

Carta para a Morte

by morten germund Leva de vez este corpo vazio de mim!

Não te espero como se espera um convidado, já somos  velhos conhecidos! Quando bateres à minha porta não terei problemas em abrir-ta!  É irónico bem sei, mas de certa maneira tenho de te agradecer, pois foi graças a ti que me fui mantendo vivo.

Foi na expectativa da tua chegada que os meus dias foram passando, lentos e arrastados. Pensei que chegasses ontem! Senti a tua mão gelada sobre o meu ombro, e quase te ouvi dizer “- vem comigo”. Eu vou não te preocupes! Já tenho um fato preparado para esse dia, não sei se alguém mo vestirá, mas isso pouco importa a esta velha carcaça, carunchosa. Desfeita será pelos bichos da terra… Pó…no final é isso que deixamos cá…Pó! Uns quantos, sortudos, deixam memórias…eu nem isso, levo tudo comigo.

Tive uma vida cheia, mas de um grande vazio! Vivi, vivi intensamente, sim vivi como se me esperasses no outra lado da rua de cada. Foram muitas vezes te chamei, muitas vezes desejei que viesses mais cedo buscar-me, quantas vezes forcei eu o nosso encontro?! .

Sei que estás perto, aí sentada a meu lado enquanto a minha mente, essa sim forte e saudável, viaja. Não te temo, mas também não te amo! Porque o deveria, és parte de mim desde o dia em que nasci! És parte do meu intimo, da minha vida! Não te amo, mas também não te odeio! Mas não me esqueço de como a levaste-a primeiro, fez no mês passado vinte e três anos! Foram vinte e três longos anos de solidão, de uma amargura que lentamente me enegrecia o coração. Vinte e três longos anos em que forcei os nossos caminhos. Pensei que fosse esta a forma, para através de ti, a poder rever.

Nunca percebi se foi castigo, nunca me deste a mão! É este o preço a pagar por te afrontar? É isto que ganho em querer que me leves contigo, viver? Vida é demasiado lisonjeiro para o que foram estes últimos anos…arrastei-me, sobrevivi a contra gosto. Fui, sou cobarde!

Castigo, ironia da vida, ou caprichos da morte!

Sinto cada vez mais perto o teu abraço gelado! Vem, envolve-me e reconforta-me, estou impaciente!

Sinto já aqui o sabor metálico do teu beijo!

Leva-me nessa barca, para onde vão as almas condenadas… leva-me de volta para junto dela!

Porque nem só de cartas vive o Homem…III

11Era um pequeno ritual semanal, um segredo escondido da Madre Superiora. Todas as terças Alice, Fernanda, Ana, saiam do convento e iam comprar os bens que não produziam no convento. A velha carrinha lá estava estacionada em frente ao portão. Hoje levavam Maria com elas, era a primeira vez que saia do convento com as outras irmãs. Maria era nova tinha 25 anos e desde cedo sentia vocação para Deus, para alegria da sua avó materna e desgosto do pai. Ao saírem dos portões do convento Alice, a mais velha diz a Maria.
– Maria vamos contar-te um pequeno segredo, mas tens de prometer que o guardas!
– Um segredo, perguntou Maria intrigada.
– Sim, um segredo que deve ficar bem guardado em especial da Madre Superiora.
– Ai ai ai, assim já me estão a assustar, não sei se quero saber nada disso, somos irmãs, tementes a Deus e dedicadas a uma vida de reclusão!
Esta resposta deixou as irmãs de pé atrás, talvez fosse melhor não falar nada com Maria, talvez o segredo delas não fosse bem percebido.A viagem seguiu em silêncio, Fernanda ligou o rádio para ouvirem um pouco de músicas, assim sempre se distraiam e não pensavam mais no segredo. O dia passou normal, e antes de regressarem a casa Maria, que estava em pulgas para saber o segredo, perguntou timidamente…
– De manhã estavam a falar-me de um segredo… eu sou boa a guardar segredos, desde que não vá contra os nossos princípios cristãos…
– Talvez seja melhor não saberes, diz Ana.
– Eu não conto nada!
– Prometes?
– Juro pela Santidade do Senhor!
– Não blasfemes rapariga, retorquiu Ana!
– Perdoa-me irmã, mas prometo que não conto a ninguém!.
– Ok, acham que devemos contar, pergunta Maria às outras irmãs.
– Por mim sim, diz Alice.
– Por mim também, e acabamos já com isto diz Fernanda.
– Seja o que Deus quiser…
Ana abre o porta luvas e por detrás de uma bíblia, retira um maço de tabaco.
– Todas as terças cada uma de nós fuma um cigarro, apenas um! Antes que te prenuncies, não é pecado, mas somos humanas e este é um dos pequenos prazeres mundanos que temos. E assim sempre podemos rezar com mais intensidade para nos redimirmos desta pequena fraqueza.
– É este o vosso segredo? Perguntou Maria enquanto sorria, Quem é que tem lume?
– E pronto este é o segredo Maria.
– O nosso segredo….